O que importa o que os outros pensam de você?

Tags

, , , , , , , , , , , , , ,

dane-se-1-830x450Sim, uma das principais inquietações de todo o alcoolista ou dependente químico de outras drogas é a respeito da opinião das outras pessoas a respeito de si. Isso é fato. Há quem, em recuperação há algum tempo, saiba lidar com isso, afinal é um dos proveitos da sobriedade. Ainda assim muitos somos aqueles que temos de fazer frequentemente o exercício de apertar o botão de “dane-se”. Quando estamos na ativa ou mesmo nos primeiros tempos de abstinência temos a sensação de que os outros sabem mais de nós do que nós mesmos. Não temos como mensurar as atitudes que tomamos quando estávamos embriagados. Então o temor sobre o arbítrio das outras pessoas se torna uma constante. E aprender a se desatar dessa apreensão é uma das necessidades para uma vida plena em recuperação.

É de um dos grandes escritores gaúchos, morto no início de 1996, Caio Fernando Abreu, a frase: “a água inteira do mar não pode afundar um navio, a menos que ela invada o seu interior (…)”. O que os outros pensam de nós afeta os outros, não a nós. Quem permite que uma opinião nos atinja somos nós mesmos. É claro, responderemos pela consequência de nossas atitudes quando estivemos na ativa. É possível que sejamos prejudicados por pessoas que têm uma opinião formada em nossos tempos ébrios. Mas imagino que o esforço para mudar opiniões é utilizado de forma mais sensata se o dispendemos para nos tornarmos pessoas melhores, ou simplesmente nos mantermos sóbrios.

Sempre haverá pessoas criticando outras pessoas, independentemente de o outro ser alcoolista ou não. E os críticos são a maioria. Steve Jobs disse: “você sempre será criticado por quem faz menos do que você. E nunca será criticado por quem faz mais do que você”. E outro dos requisitos da sobriedade é estarmos fazendo algo a mais, é estarmos nos melhorando a cada dia. Muitas das vezes, se estamos sendo criticados, é porque estamos progredindo. A sobriedade não exige que sejamos perfeitos, mas o melhor que pudermos ser hoje. Precisamos ter convicções de nossas capacidades, conhecermos a nós mesmos. Com essa força, as críticas ou qualquer outra opinião dos outros ficarão em um plano muito inferior em nossas vidas.

Não permita que a opinião dos outros afete sua sobriedade. Tenha um objetivo e corra atrás dele. Esqueça dos problemas sem solução. Aceite que errar de vez em quando faz parte do seu aprendizado. Seja otimista e creia na sua capacidade. Capacite-se. E, acima de tudo, tenha fé em seu Poder Superior. Você vai dar certo.


Escrito pelo editor de Alcoólico em Paz. A reprodução é livre desde que citada a fonte e indicado link para o texto original.

Anúncios

A ferramenta dos três porquês aplicada à recuperação do alcoolismo

Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , ,

Há alguns anos, lendo um livro do empresário e, por que não, pensador pós-moderno Ricardo Semler, deparei com o que ele chama de “ferramenta dos três porquês”. Na vanguarda de seu tempo, Semler tem um jeito irreverente e contestador que o coloca sempre à frente no que se refere à inovação. A ideia é bem simples: perguntar “por que” três vezes seguidas ao analisar qualquer assunto. Segundo ele, é uma das chaves para fugir de uma “vida insossa, uma sociedade insatisfeita e uma padronização que abafa até a alma”. Pois bem. Pensei um pouco a respeito e acredito que os três porquês podem ajudar muito na tomada de decisões quando estamos vivendo uma recuperação do alcoolismo.

Na prática, podemos notar que a primeira resposta todos temos. Por quê? Ora, porque tal e tal! Nossa capacidade de raciocínio geralmente é acionada quando ouvimos o segundo porquê. Somos chamados a detalhar, ter mais clareza em nossa argumentação. E é aí que geralmente o alcoolista – ou dependente químico de outras drogas – tem despertada uma característica instintiva, congênita, natural: a tendência à manipulação. E todos que são ou convivem com dependentes sabem da profunda capacidade que têm nesse quesito. E, se estamos falando de alguém que está em recuperação, ou seja, abstêmio e em busca de eliminar ou, pelo menos, anular seus defeitos de caráter, precisamos ter em mente o amplo esforço necessário para se passar por essa segunda etapa.

Imagino que a “ferramenta” do Semler se aplica bem a alcoolistas pois, como qualquer pessoa, estamos continuamente a fazer escolhas, minuto a minuto. Entretanto já no segundo porquê vimos que somos diferentes e, querendo ou não, até uma pequena escolha consegue desviar o trem para trilhos que levam a lugares não muito desejáveis. Então, quando finalmente conseguimos, geralmente com certo esforço, chegar a uma resposta minimamente clara, vêm o terceiro: “tudo bem, mas por quê?” É então que surge a questão do foco.

Foco é um dos principais instrumentos de quem está em recuperação. E não é o caso de ampliarmos essa questão, mas falarmos de escolhas é importante. Nesse terceiro porquê é quando as pessoas costumam fechar os olhos e seguir a intuição. Nós não temos esse direito. Precisamos estar sempre atentos como no jargão que diz que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Necessitamos colocar nosso foco naquilo que melhora nossas vidas, pois aquilo que não melhora, certamente vai piorar.

Jesus Cristo disse, segundo o evangelista Mateus: “Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mt, 6:21). Assim sendo, mais fácil fica responder ao terceiro porquê quando perguntamos a nós mesmos: onde está o meu tesouro? O que é importante na minha vida? Onde devo colocar meu foco? O que vai acarinhar meu coração?


Escrito pelo editor de Alcoólico em Paz. A reprodução é livre desde que citada a fonte e indicado link para o texto original.

Melhores aplicativos sobre alcoolismo e recuperação para smartfones

Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Há tempos ando fuçando em busca de aplicativos sobre alcoolismo para smartfones. Em janeiro de 2015, publiquei uma primeira lista com os cinco melhores que encontrei. A lista foi aumentando atualmente temos 15.

Também encontrei uma série de outros apps que fazem referência ao tratamento ou recuperação do alcoolismo, mas têm conteúdos um tanto hilários na minha opinião como um que serve como um diário no qual você pode ir registrando seu dia com texto, áudio, vídeo e fotos para o caso de beber e ter um apagão.

Este blog, Alcoólico em Paz, chegou a ter um aplicativo a partir de 2017, mas, assim como nosso grupo de WhatsApp, foi extinto.

Abaixo de cada um, coloquei os links para baixar e instalar. Caso vocês esteja acessando de um computador de mesa ou notebook, o sistema vai localizar o seu smartfone e pedir licença para instalar. É só aceitar que ele baixa e instala. Segue a lista:

 

Diaro

DiaroDiaro é projetado para registro de atividades, experiências, pensamentos e ideias durante todo o seu dia. Na minha prática de recuperação, acho bem interessante trabalhar a escrita dos registros. E de todos que testei, esse é o melhor disparado. Tanto que comprei a versão PRO para poder sincronizar as informações com todos os meus dispositivos e inclusive acessar via PC.

Ele permite organizar as entradas criadas em seu diário ou notas do passado da forma muito fácil. Pesquisas poderosas ajudam a encontrar as entradas por qualquer palavra no título ou no texto e filtrar os resultados por categoria ou etiquetas.

O Diaro pode ser facilmente usado como um diário clássico, diário de viagem, rastreador de humor, editor de notas simples, planejador de negócios, rastreador diário de despesas ou até mesmo como diário de dieta.

Android (Gratuito)

Socorre.me

Aplicativo brasileiro que, além das estatísticas de cálculo de dinheiro salvo e tempo de abstinência, calcula também os ciclos de 21 dias e a porcentagem de chance de você não beber ou usar drogas. Também oferece uma aba para que sejam listados os locais, situações e memórias químicas que devem ser evitados e emite alertas quando configurado para isso. Oferece questionários para calcular o nível de alcoolismo ou drogadição e outras aplicações interessantes.

O diferencial maior é que você pode adicionar fotos a uma linha do tempo para que veja sua mudança física. Além disso, em outra aba, pode adicionar fotos e vídeos de amigos e familiares para que sirvam de incentivo e evitar uma recaída.

Android (Gratuito)

Couter Sobriety

Não só calcula dias limpo e sóbrio, mas também o dinheiro que guardou Você também tem recompensas para a hora de ter ficado limpo e sóbrio, rápidas mensagens motivacionais diárias e notificações para lembrá-lo para lê-los.

Tem também um excelente grande motor de pesquisa. Basta digitar uma palavra para descrever como você se sente atualmente e vai levar você para respostas para lidar com esses sentimentos para que você se sentir melhor e não recair. Outra, se você tem um desejo, basta responder suas perguntas simples e que vai levar você para uma resposta a uma questão que é relevante para o que você está experimentando atualmente. Ela ajuda a mudar o pensamento recaída ao pensamento de recuperação. Nenhum outro livro de recuperação ou aplicativo é projetado para fazer isso. Tudo que você tem a fazer é seguir suas instruções simples para obter uma leitura relevante.

Além disso, tem um fórum da comunidade (em inglês) onde você pode compartilhar anonimamente suas mensagens pessoais, comentários e obter o apoio de outros.

Android (Gratuito)

Sober Time

Bem mais simples que o Counter Sobrety, mas muito útil por isso mesmo. Fácil de usar e pode ser utilizado para várias coisas. Eu, por exemplo, utilizo também para saber o tempo exato de vida da minha filha…

Sober Time rastreia quanto tempo você tem estado sóbrio e apresenta-o como você deseja vê-lo. É bem interessante e melhor que muitos outros apps semelhantes em português. Uso e recomendo, mesmo para aqueles que são aversos a contar os dias de sobriedade. É bem divertido e quebra um galho quando realmente desejamos saber quanto tempo estamos limpos.

Android (Gratuito)

HabitBull

HabitBullOs hábitos não são mais do que rotinas que você executa subconscientemente. Para construir uma, treine. Para quebrar uma, encontre outra que seja similar, contudo diferente e mais agradável, e repita-a até que ela persista.

O HabitBull permite que você defina lembretes para cada hábito e exiba-os nos dias em que você precisa para ser bem sucedido. Ele também pode ser usado como uma ferramenta de planejamento de calendário ou lista de verificação, mas também como um lembrete de repetição muito eficaz (por exemplo, para beber água a cada 2 horas).

A ideia é obter uma série para o hábito que você está trabalhando ao cobrindo seus objetivos. Quanto mais tempo melhor. Demora um par de meses para construir uma nova rotina, leva tempo e se você é consistente, vai funcionar. Mesmo que demore algumas tentativas.

Android (Gratuito)

Querida Ansiedade

querida

A ansiedade é um dos mais preocupantes males por que passam o dependente químico. O aplicativo traz um “perguntas e respostas” a respeito de tema, como diagnosticar e como entender a doença, além de como buscar ajuda. Também traz dicas de como se acalmar em momentos de crise, exercícios práticos, vídeos, comunidade no facebook.

Como extras, traz um e-book sobre ansiedade e um link para o consultório virtual da psicóloga Camila Wolf, criadora do app e psicoterapeuta Gestalt.

Android (Gratuito)

Thirty

30É um aplicativo que te ajuda a buscar objetivos em prazos de 30 dias. Ele ajuda a estabelecer prazos e metas a serem cumpridas baseado em uma mudança de hábitos para vencer os desafios. Segundo os desenvolvedores, “nenhum sonho é distante e todo objetivo pode ser alcançado, se você permanece motivado em sua rotina de hábitos e não desiste. Os objetivos realizados impulsionam nossa vida e nos guiam para o sucesso!”

O app tem a intenção de organizar seus objetivos, manter bons hábitos, cumprir tarefas e transformar seu estilo de vida.

Android (Gratuito)

Medite.se

mediteO Medite.se é a introdução a meditação de forma simples. Use quando e onde quiser são poucos minutos por dia você pode inclusive baixá-las para escutá-las offline. A ideia dos desenvolvedores foi fazer de você o seu próprio personal-trainner para condicionar sua mente. “Quando meditar se tornar simples teremos alcançado nosso objetivo”, dizem eles na descrição do aplicativo.

O Medite.se tomou um longo tempo para ser criado, mas a intenção é que se torne uma boa ferramenta para quem quer se conhecer usando a meditação.

Android (Gratuito)

Lojong: meditação e mindfulness

LojongAprenda a meditar de forma simples e treine sua mente com o Lojong. Com meditações guiadas, vídeos animados, timer e um todo um conteúdo baseado nos métodos e tradições consagrados, o Lojong funciona como uma “academia para a mente”. Com ele você irá aprender como trazer a atenção plena para o seu dia e transformar sua mente para que ela possa se tornar mais calma, relaxada e livre, reduzindo a ansiedade e o estresse que costumam estar presentes em nossa rotina.

O aplicativo da acesso a meditações guiadas baseadas em diversos métodos e tradições. Além disso, oferece as mais diversas práticas guiadas baseadas em programas de mindfulness consagrados.

Android (Gratuito)

Cíngulo

cinA autoestima influencia todos os aspectos da vida. Sua relação consigo mesmo tem um impacto direto no seu nível de felicidade, nas suas conquistas profissionais e, principalmente, nos seus relacionamentos afetivos e na recuperação em dependência química.

Pensando nisso, os desenvolvedores utilizaram conhecimentos clínico e científico com a tecnologia para criar um aplicativo com conteúdos, técnicas, áudios, vídeos e exercícios para você mesmo poder fortalecer a sua autoestima.

Android (Gratuito)

One day at a time (Um dia de cada vez)

Quem é familiarizado com Alcoólicos Anônimos irá reconhecer o conteúdo deste aplicativo rapidamente. Ele traz o conteúdo do “Big Book” (o original em inglês do livro “Alcoólicos Anônimos”) portátil e interativo. Quando você precisa de uma distração ou um pouco de incentivo, pode ler através trechos marcados do livro, orações, ou mensagens inspiradoras. Você também pode compartilhar seu tempo de sobriedade com outros companheiros que também tenham o aplicativo instalado. Pode servir como um lembrete gentil e uma fonte constante de motivação quando você precisa de um pouco de ajuda.

Android (US$ 1,99)  iPhone (US$ 1,99)

Coach-me (Incentive-me)

Funciona como um sistema gerenciador de metas, o que é bem importante para nós, alcoolistas. Mantenha seus objetivos simples e realistas em primeiro lugar. Em seguida, verifique se você está sendo responsável com eles. Você pode criar um objetivo e quando você completá-lo com sucesso, o aplicativo gera uma festa para você! Você pode, inclusive, compartilhar objetivos com companheiros. Criei um chamado “Permanecer Sóbrio Por 24h”. Caso instale o app, busque esse objetivo e todos os dias, às 9h, celebraremos juntos mais um dia sóbrios.

Android (Gratuito) iPhone (Gratuito)

Afternoon Affirmations (Afirmações Vespertinas)

Motivação e afirmação podem ser boas opções para o caminho da recuperação. A função deste aplicativo é muito simples: Todos os dias, às 13h (não sei qual o fuso horário), ele entrega uma mensagem de afirmação para o seu iPhone (não tem para android).

Iphone (Gratuito)

 

White Noise Lite (Sons Relaxantes)

Muitos de nós temos dificuldades para dormir ou para nos concentrarmos em uma meditação ou tarefa. Esse aplicativo traz sons muito interessantes para nos ajudar. Ele foi projetado para ajudar o seu cérebro bloquear os pensamentos perturbadores, relaxar e cair no sono. Dos vários aplicativos de sons para relaxar ou dormir que baixei recentemente para ajudar minha bebê a dormir, esse realmente, mesmo não sendo feito para bebês, é muito, muito melhor.

Android (Gratuito)  iPhone (Gratuito)

Estranhos no ninho: conectando-se com o mundo

Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Mesmo em recuperação há alguns anos, muitos de nós alcoólicos e adictos ainda nos sentimos como na fase ativa de nossa doença em alguns aspectos, principalmente o social. Não diríamos que somos como estranhos no ninho, mas é como se sentem os companheiros de enfermidade que, por um motivo ou outro, não conseguem trabalhar a si próprios para enfrentar com certa tranquilidade o mundo real. De fato, ao conhecermos os primeiros momentos de sobriedade após algum tempo de abstinência, deparamos com um sistema social completamente diferente daquele que vivíamos em nossos tempos ébrios.

E o mais chato disso tudo é que qualquer criança parece entender os conceitos e regras, o que é sensato, as consequências de certos atos ou palavras… enquanto chacoalhamos a cabeça como se a certificarmo-nos que estamos realmente lúcidos. Parece exagero, mas se levarmos em consideração a quantidade de mancadas que damos em nossos primeiros tempos sóbrios, fica parecendo que não temos habilidades humanas básicas. Sabemos do potencial que temos para adquiri-las ou recuperá-las. E rogamos por sabedoria para tanto.

Perceber que estamos conectados a um sistema complexo, cheio de pontos de ligação, uma verdadeira teia com multiconexões, já assusta um pouco. Ficamos ainda mais surpresos ao saber que somos solicitados a participar. Agora nossa opinião importa. Nossa ação é solicitada (afinal, ninguém quer um peso extra na teia que não ajude a construí-la constantemente). Mas o quê e como fazer? Nos sentimos como um garotinho aprendendo a andar de bicicleta. Para conseguir se equilibrar nessa nova forma de locomoção, ele descobre que precisa pedalar mais rápido e virar o guidão na direção a qual a bicicleta está caindo. Exatamente o contrário do que sabia desde que aprendeu a caminhar, diminuindo a velocidade e se inclinando no sentido contrário ao da queda. Sim. Por algum tempo, tudo é tão diferente. Até que passamos a desenvolver a nova habilidade, o que alguns estudiosos chamam de inteligência sistêmica. Ela é que nos permite trabalhar o autoconhecimento, a autogestão, o reconhecimento dos sentimentos e necessidades dos outros e a busca de serenidade nas tomadas de decisão. Pois são essas tomadas de decisão, os caminhos a escolher, as palavras a usar que costumam atormentar um alcoólico/adicto consciente de sua recuperação.

É comum que não entendamos alguns delays da vida. Por exemplo, alguém pode ser franco demais conosco, ou nos ignorar quando achamos que deveríamos ser considerados, ou até mesmo ser rude. Em um primeiro momento, não entendemos tais atitudes. Ocorre que geralmente não nos voltamos ao passado com empatia a fim de compreender tais atitudes. Muitas das vezes, em épocas anteriores, tínhamos agido de forma pior com essas pessoas. Pode ser que nem lembremos, mas é bem mais possível que não tenhamos capacidade de olhar para nossas atitudes do passado com os olhos e os sentimentos do outro. Se assim o fizermos, creio que muitas das “injustiças” que sofremos agora têm explicações bem plausíveis.

Pois bem, e como agir ao descobrirmos isso? Sorte nossa que temos disponível um programa de 12 passos. Descobrimos por meio dele que no oitavo podemos trabalhar essas descobertas relacionando as pessoas a quem tínhamos prejudicado e, mais importante, nos dispor a fazer alguma forma de reparação. E isso começa justamente com nossa preocupação empática com tais pessoas. Mais além, o Nono Passo nos convida a fazermos essas reparações. Começamos a viver mais leves.

Avançando um pouco mais, o Décimo Passo pede que continuemos a pensar sobre nossos atos e a admitir prontamente no caso de estarmos errados. Então, além de reconhecer os delays e entender as relações de causa e efeito, com o tempo adquirimos a habilidade de descobrir antecipadamente onde surgem consequências involuntárias. Ou seja, passamos a agir com mais sensibilidade prospectando os efeitos de nossas atitudes e palavras nos outros. Nos tornamos mais sensatos, mais mansos, mais criativos até. Isso faz parte da serenidade.

Podemos continuar na tentativa de “demarcar território”, de defender nossa opinião até a morte e até utilizá-la para machucar quem não concorda conosco. Ou podemos fazer aflorar em nós a compreensão da consciência coletiva, na qual se sabe que o mundo, a sociedade, a nossa família e até nós mesmos não somos exatamente o que pensamos, mas o resultado de milhares de outras opiniões. A nossa é apenas uma, mas a mais importante. Não por ser a melhor (isso não estão em questão), mas por ser a que melhor e mais facilmente podemos modificar. Quando compreendemos isso, passamos a enfrentar questões desafiadoras com mais humildade e sabedoria. Nossa recuperação depende disso.


Escrito pelo editor de Alcoólico em Paz. A reprodução é livre desde que citada a fonte e indicado link para o texto original.

Sintonizando com outras pessoas: um passo para uma base segura na recuperação

Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Acredito ser necessário nós alcoólicos e adictos em recuperação refletirmos sobre dois aspectos da nossa reeducação pessoal: a aprendizagem social e emocional e a vivência com outras pessoas (não necessariamente outros alcoólicos/adictos). Olhando bem para nossas vidas na fase ativa de nossa doença percebemos que a ausência total de autodomínio nos empurrava a atitudes desprovidas de qualquer resiliência. E quase sempre isso resultava na falta de objetivos concretos ou sinceros e de persistência para qualquer outra atitude próspera. Estivemos cansados, entregues, melancólicos. Reclamávamos de todos os reveses. Éramos as pessoas mais injustiçadas desse mundo (e acaso do outro). Era o reinado absoluto da autopiedade.

Entendo que, se acaso resolvermos reverter o giro dessa roda destrutiva de modo a adquirirmos um mínimo de condições de convivência social (e até conosco mesmos), devemos focar no trabalho de uma habilidade chamada empatia. Ou seja, procurar saber o que os outros sentem e pensam, tentar compreender seus pontos de vista, suas crenças e seus desejos. Apenas essa compreensão sincera pode ser capaz de nos tornar pessoas sensatas ou então, diria, menos intragáveis. Nem penso em solicitar aqui atitudes de cooperação ou trabalho em equipe. Ajudaria bastante se ao menos nos tornássemos pessoas mais mansas e compreensivas. E engana-se quem acha que tal ajuda é para os outros. Tal estado de espírito e consciência ajuda, essencialmente, a nós mesmos.

Há algum tempo, existem pesquisas sobre um aspecto da psicologia e psiquiatria chamado de neurociência social. Envolvido nisso, há um estudo sobre “neurônios-espelho”, espécie de células cerebrais que são estimuladas com base no que percebemos em outras pessoas. É como se tivéssemos um “cérebro social” (no nosso caso bem involuído) que, se devidamente (re)ativado, nos permite compreender mais claramente as situações nas quais estamos envolvidos, as pessoas com as quais estamos interagindo e nos deixar mais tranquilos para tomadas de decisões. Afinal, se formos bem sinceros, sabemos que mais da metade (ou muito mais do que isso) dos problemas que nos envolvemos poderiam ter sido evitados caso tivéssemos habilidade social para escolher palavras, gestos ou atitudes. Livres de perturbações, passaremos mais tempo determinando objetivos lúcidos, aumentando nossa autoestima e melhorando cada vez mais nossa capacidade empática. E então teremos a inversão no sentido da roda: paramos de patinar ou andar para trás.

E assim passamos a um rumo mais fluido em nossa recuperação, pois passamos a cultivar a compaixão. Sim, começamos a ir além a compreensão dos sentimentos dos outros. Passamos a demonstrar preocupação e estarmos prontos para ajudar, conforme nos solicita o 12º Passo de Alcoólicos Anônimos. Tendo experimentado o despertar, passamos voluntaria e legitimamente a ajudar aqueles que ainda sofrem (ou sofrem mais do que nós). E falar nisso nos tempos atuais, quando temos quase sempre dezenas de questões que parecem sempre mais importantes ou mais urgentes para resolver, quando recebemos centenas de informações, e-mails, mensagens, telefonemas… ou mesmo quando achamos que precisamos de mais tempo para cuidar da nossa própria recuperação, pode quase parecer um desatino. Mas não podemos esquecer que nossa recuperação também depende disso. Dessa entrega ao outro. E de uma coisa estou certo: compaixão é um sentimento que pode ser aprendido. Ele começa com o desejo sincero de desenvolver a empatia. Mais do que isso, passa também pelo sentimento da necessidade de agir, a despeito da virtuosidade ética.

Resumindo, acredito que a empatia pode ser dividida em três níveis. O primeiro é mais relativo à percepção, ou seja, compreendemos como as outras pessoas veem o mundo e por que se posicionam de tais formas diante das situações. O segundo é mais emocional. Conseguimos perceber quase que instantaneamente como os outros se sentem, como se também pudéssemos sentir suas emoções. Já o terceiro nível, acredito que mais difícil para pessoas “normais” e mais fácil para alcoólicos e adictos, é o que podemos chamar de preocupação empática. Se dá quando estamos sintonizados com o outro e prontos para ajudar.

Tudo muito lindo. Mas uma coisa é dizer, outra é fazer. Deixar de lado nossos principais defeitos de caráter, o orgulho e o egoísmo, é tarefa para a vida. Para nós, conviver com outras pessoas com zelo caridoso e genuíno é quase um deboche. Mas acredito ser esse o caminho para construirmos uma base segura para a nossa recuperação. Precisamos urgentemente saber conviver com os outros, cada vez melhor. É imperioso que tenhamos atitudes sensatas e generosas. Com essa base segura podemos ter a mente funcionando em um nível agradável e firme, sem oscilações; conseguimos assumir riscos inteligentes e crescer na vida. Nossa criatividade passa a ser utilizada para o nosso bem e o de outras pessoas. Voltamos a sentir entusiasmo com nossos projetos e a confiar e receber confiança daqueles com os quais convivemos. Isso tudo, creio, é mais que um passo. É uma caminhada bem mais serena em nossas vidas em recuperação.


Escrito pelo editor de Alcoólico em Paz. A reprodução é livre desde que citada a fonte e indicado link para o texto original.

Bíblia de Estudo Despertar

Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Olha aí, pessoal. Encontrei em uma reunião de A.A. em Garibaldi (RS).

Sinopse: “A obra é dirigida àqueles que buscam o ponto de vista de Deus sobre o processo de recuperação de sua vida ou de um estado de dependência. Tomando como base o programa dos 12 Passos adotado por Alcoólicos Anônimos, a obra oferece recursos que conduzem o leitor a ensinamentos das Escrituras Sagradas que contribuem para a recuperação de sua vida.”

Para comprar pela internet, é só acessar o site da Sociedade Bíblica do Brasil. Ela sai por R$ 55, mais o frete. Mas encontrei mais barato (por até R$ 33) no Mercado Livre.

Autoconsciência: saber como você se sente e por quê

Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Não sei das outras pessoas, mas nós alcoólicos (e acredito que também dependentes de outras drogas) carecemos de aulas de alfabetização emocional. Muitas delas. Adultos mais ou menos normais parecem ter noção dos seus sentimentos. Mais: parecem também saberem, com certa segurança e boa dose de equilíbrio, por que suas mentes ou seus corpos estão reagindo de tal maneira. Nós (ou, acredito, pelo menos a maioria) parecemos não termos essa percepção interna básica, geralmente aprendida na infância.

Bom, mas agora o estrago já está feito. Nosso negócio é consertar. Buscar soluções. Eu faço terapia, mas acredito mesmo é na espiritualidade (que possivelmente me faça pensar e estudar minha existência e meus sentimentos mais do que qualquer terapeuta). Espiritualidade essa que é a base da recuperação, de acordo com os Doze Passos de Alcoólicos Anônimos (A.A.). E é com eles servindo de ferramenta que podemos realizar uma tarefa muito importante e séria em nossas vidas: nomear nossos sentimentos. Ter clareza (por menor que seja) de nossas emoções, do que ocorre em nosso íntimo, é fundamental para que consigamos tomar decisões sóbrias, lúcidas. Em outras palavras: parar de pensar besteira e de fazer bobagem! Porque fazer reparações é preciso, mas viver para isso é masoquismo. Por isso é que procuramos rogar por sanidade ao Poder Superior. Rogar pelo caminho vivo e lúcido da sanidade. E parece ser bem fácil perdermos o rumo quando não somos capazes de reconhecer e administrar minimamente nossas emoções.

Dar atenção a esse mundo interior, com seus defeitos e qualidades, alegrias e tristezas, ânimos e angústias, é que nos capacita a termos um pouco de controle de nós mesmos. Sim, porque o Poder Superior é quem deve estar no comando, mas quem tem de interpretar seus desígnios e agir somos nós. Esse foco interno, tão solicitado, por exemplo no Décimo Passo (“Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente”) nos faz reconhecer o terreno no qual edificamos diariamente nossas obras. Nos dá noção para tomarmos pequenas ou grandes decisões que influenciarão nossas vidas tanto em curto ou longo prazos.

Mas nem é sobre tomada de decisões o mote desta reflexão que faço. Penso puramente no olhar para dentro de nós mesmos. Acho que é assim que podemos entrar em sintonia com o que e mais importante para nós. Em consequência, temos um contato bem claro com os interesses que nos motivam. Ato contínuo, temos lucidez para fazer escolhas que abrandem nossos sofrimentos e acendam nossas alegrias (porque elas existem). E o mais interessante é que essa se torna uma motivação intrínseca, que vem de dentro. Isso aumenta a possibilidade de que, com o tempo, passemos a agir e pensar com o que poderia chamar de responsabilidade emocional, de viver em sintonia com o que é realmente importante para nós, de estabelecer práticas condizentes com nossas crenças e valores que nos aliviem e impulsionem ao mesmo tempo.

O olhar atento e constante para nossas emoções nos permite essas novas experiências (acho que prazerosas em sua maioria). Nomeando nossos sentimentos passamos a perceber o que queremos cultivar em nossas vidas e por quê. Essa competência para entrar em sintonia comigo mesmo e com o que importa para mim é o que estou tentando aprender. A vida passa e agora já consigo ver algumas coisas acontecendo. É como se eu começasse a imaginar/compreender/sentir que tenho um certo leme interno e que posso colocá-lo em direção aos meus valores. E tudo parece florescer quando o trabalho é bem feito.

Há poucos dias estou praticando essa consciência observadora e tentando ponderar meus pensamentos, principalmente nos momentos mais intolerantes, críticos, raivosos até. Tem dado certo. Dá para perceber que já controlo boa parte dos impulsos antes de agir. Esses momentos de pausa passaram a ser um bálsamo, um pouquinho de liberdade para escolher, para administrar as emoções e impulsos em vez de ser terrivelmente controlado por eles.


Escrito pelo editor de Alcoólico em Paz. A reprodução é livre desde que citada a fonte e indicado link para o texto original.

O peixe que morreu no mar sem nunca ter visto o mar

Tags

, , , , , , , , , ,

Ouvi uma estória impressionante. Um sábio senhor me contou sobre um peixinho que queria encontrar o mar. A grande expectativa desse pequenino era encontrar o mar, nadar no mar, conhecer as maravilhas do oceano, do grande oceano, do imenso oceano que sempre ouvira falar. Segundo o homem me contou, era um peixinho agitado, de certa forma impaciente. Nadava sempre bem rápido sem dar muita atenção às coisas do dia-a-dia, às coisas que passavam por ele cotidianamente. Estava focado em sua obsessão de chegar ao mar. De ver as maravilhas do mar, de viver, de sentir emoções, de curtir, de, quem sabe, pelo menos ser aceito nas águas do mar.

Nós alcoólicos parecemos muito com o tal peixinho da estória. Vivemos buscando alegrias e satisfações, muitas vezes pelo menos um sentido para nossas vidas… e raramente encontramos. Mas, voltando ao pequeno peixe, certo dia ele encontrou um peixe bem grande. Grande o suficiente para não se preocupar com a correria do peixinho. Intrigado, perguntou:

_ Por que nadas tão rápido, de um lado para outro, pareces procurar algo que perdeste?

_ Quero chegar ao oceano, quero conhecer o mar, quero viver as maravilhas desse mundo imenso que é o mar.

_ Mas… pequeno amigo, tu já estás no mar!

_ Como? Não é possível! O oceano é muito grande, é imenso, e só consigo ver poucos metros à frente.

_ Mas…

_ Desculpa-me, seu peixão, preciso continuar minha busca.

E foi assim que, depois de um certo tempo, o pequeno peixe morreu… no mar… sem nunca ter visto o mar.

Na maioria das vezes nos comportamos assim. Procuramos alegria no dinheiro, na boa saúde, no poder… no sucesso. Por falar nisso, já paramos para pensar por que tantas pessoas famosas cometem suicídio? Chegaram onde quiseram: ao sucesso. Porém, quando lá chegam, sentem-se no cume de uma montanha e que os únicos caminhos que ocorrem são para baixo.

Mas não precisamos viver assim. Basta descobrirmos o oceano no qual estamos nadando e sermos felizes com o que temos ao nosso redor. Basta percebemos o infinito que nos rodeia. Basta termos mente aberta para as oportunidades, para a vida feliz que podemos ter.

Assim espero que tanto eu como você consigamos perceber o oceano no qual vivemos e sermos felizes como somos e com o que temos, por enquanto.