Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , ,

Foi em uma quinta-feira de outubro. Acordei por volta das 7h. Levantei e tomei um restinho de cachaça que havia sobrado da garrafa de meio litro consumida na noite anterior. Sentei-me no sofá para assistir tevê e um terror passou a tomar conta de mim. Até hoje não entendo muito bem o que ocorreu. Só uma coisa estava clara em minha mente: se eu continuasse a beber, iria morrer. E, pela primeira vez, só uma coisa gritava em minha alma: eu não queria morrer.

Se é que todos nós alcoólicos que procuramos desenvolver o programa de 12 Passos de Alcoólicos Anônimos temos, em um determinado momento, um despertar espiritual, acho que esse foi o meu. Não vi luzes, não ouvi vozes… nem mesmo uma brisa eu senti. Eu apenas olhava meu corpo seminu em frente ao espelho e não acreditava como é que eu estivera esse tempo todo me matando. Eu sabia que a bebida estava me matando, mas bem lá no fundo, não acreditava nisso. Naquela manhã eu tive certeza. Naquela manhã, aos 39 anos, decidi nunca mais estar ajoelhado em frente a um vaso sanitário tentando vomitar.

Por essas sincronicidades da vida, eu havia marcado psicóloga e psiquiatra para aquela tarde. Era a primeira consulta em ambos. Atenderam-me normalmente, como todos os psicólogos e psiquiatras anteriores. Mas desta vez parece que tudo fazia sentido. Com o médico ficou claro que teria de tomar uma medicação básica nos primeiros meses de abstinência e que logo seria um homem normal, embora alcoólico. Senti-me um tanto sem jeito com a psicóloga, pois relatava problemas que, conforme eu ía falando, ía percebendo que não eram problemas, mas loucuras de um alcoólico e que nessas poucas horas de abstinência já deixavam de exisitir em função do firme propósito que eu havia conquistado em frente ao espelho pela manhã.

E tudo ficou tão claro. E parece que todos os ensinamentos que tive em minhas três internações de 28 dias se encaixaram no meu ser. Sim, percebi que a partir de então teria que lidar com sentimentos inerentes aos principiantes na sobriedade, como culpa e memória química. Mas essa tarefa não parecia mais terrível como antes. Sim, percebi que teria de mudar totalmente meu estilo de vida e o modo de encarar as empreitadas do cotidiano. Mas aquela dificuldade imensa de fazer o básico, de cumprir a agenda, havia praticamente sumido. Senti que naquele fundo de poço uma corda firme havia me sido jogada do alto. E eu precisava me agarrar nela de uma vez por todas.

E foi então que eu senti aquela paz que nunca mais deixei escapar. A paz, para mim, é essa corda a que estou agarrado, subindo cada vez mais para a claridade. Percebi que eu nunca havia conseguido ficar abstêmio por total falta de fé. Acreditava em Deus, mas me faltava a fé verdadeira. Hoje sei que há um Poder Superior que não está acima, mas ao meu lado, na maioria das vezes abraçado a mim, dando apoio para que eu possa caminhar. É isso que eu chamo de paz. É isso que me faz permanecer sóbrio. E isso me surpreende a cada dia, a cada noite que deito na cama e percebo que passei mais um dia sem beber.

Hoje faço dieta para controlar meus problemas de saúde trazidos pelo álcool. Faço exercícios religiosamente todos os dias. Frequento reuniões de Alcoólicos Anônimos. Volto à clínica regularmente pelo menos uma vez por mês para dar e receber apoio. Trabalho com prazer e sem angústia. Estou a cada dia melhorando meu casamento que havia perdido e consegui de volta. Mas, principalmente, hoje tenho o amor de minha filha. E ela sabe que tem um pai sempre disponível, sempre sóbrio, sempre disposto a ser um homem melhor a cada dia.