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“Evitar hábitos, lugares e pessoas”. A máxima é repetida dezenas de vezes em uma internação de 28 dias em qualquer centro de recuperação do alcoolismo. É uma forma resumida (bem resumida) de se falar sobre o enfrentamento da memória química. Na verdade, só consegui algum controle sobre meu alcoolismo quando coliquei ela como protagonista da minha vida. Estou sempre atento porque tenho consciência que a minha memória química está sempre presente me apresentando gatilhos para uma recaída.

Se você nunca ouviu esse termo, memória química, pense na sensação de vontade de fumar junto com o cafezinho de depois do almoço. Lembre daquela ansiedade por um trago quando o relógio bate 17h e falta apenas 30 minutos para você sair do trabalho e se enfiar no bar da esquina. Imagine só você preparando um churrasco e sua mão buscando um copo de caipirinha que não está lá. Essa é a memória química. São todas as situações do dia a dia em que bebíamos e que agora temos de fazer as mesmas tarefas sem beber.

Algumas delas podemos evitar, claro. Mas, pelo menos para mim que bebia sempre, por qualquer motivo (ou sem motivo) e em todo o lugar, fica mais difícil. Mesmo para o alcoólico mais restrito é impossível evitar tudo. Eu costumava beber após o trabalho. Mas não posso deixar de trabalhar. Há quem bebesse somente em casa. Mas não pode deixar de ir para casa. Enfim, temos de aprender a reconhecer os gatilhos da memória química e estar atentos para, nesses momentos, usarmos de todas as nossas ferramentas espirituais que nos são fornecidas em Alcoólicos Anônimos para poder driblar a tentação e a recaída.

Mas é claro que, pelo menos nesta página, onde nos propomos viver em paz, sem angústias, temos de olhar as coisas por este viés. Uma das coisas que podemos nos basear é que, segundo estudos, a memória química tende a abrandar com o tempo. Ainda que a compulsão inconsciente perdure por toda a vida, estudos conhecidos pelo nome de “fenômeno da sensibilização” dão conta que, no nosso caso, evitando hábitos, lugares e pessoas por si só já é um passo bem consistente.

Mas para mim o que funciona mesmo é a substituição. Por exemplo: aquela ansiedade de terminar logo o expediente para ir beber foi trocada pela vontade de chegar logo em casa, calçar meus tênis e fazer minha hora de caminhada. Troquei álcool por endorfina. Tenho feito outras trocas saudáveis e estou me sentindo muito bem. E hoje até fico feliz quando sou tomado por uma ansiedade repentina. Pois é sinal que estou conseguindo detectar os gatilhos da minha memória química e domá-la para levar minha vida feliz e em paz.


Mais sobre memória química:

http://drauziovarella.com.br/dependencia-quimica/a-memoria-do-prazer/