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Invariavelmente, em uma reunião de Alcoólicos Anônimos alguém cita ou relata agruras pelas quais fez suas famílias, principalmente suas esposas, passarem. Já ouvi o chicote da culpa maltratando até companheiros de 20, 25 anos de sobriedade. Não é para ser assim, sabemos. Quem se dedica ao programa de 12 Passos (mais especificamente do 4° ao 9°) praticamente se livra das chibatadas, embora permaneçam as cicatrizes.

Não falamos em religião em A.A., mas preciso citar o padre Fábio de Melo: “O amor sobrevive de futuro. Ele consegue enxergar o que a gente ainda não viu. A pessoa que ama consegue enxergar o que o outro ainda não é. Vê o avesso. Vê o contrário da situação”. E é bem assim. Em reuniões abertas em que temos o prazer de receber e ouvir depoimentos de Alanons (familiares de alcoólicos), sempre percebemos isso. Vemos mulheres que viam, e geralmente só elas conseguiam ver, a alma daquele doente alcoólico. Sabem que só fazíamos o que fazíamos em função de nossa doença. Desrespeitávamos a quem mais tínhamos respeito, fazíamos chorar aqueles que mais queríamos ver sorrir… e até chegávamos a odiar aqueles a quem mais amamos.

O alcoolismo é mesmo a doença da família. Lentamente destrói qualquer harmonia. Atinge a todos, até o cachorro. As plantas morrem. Com o tempo, o horror se instala. E nós, alcoólicos em recuperação, custamos para compreender como é que aquelas fortes mulheres conseguiram suportar os anos de loucura a que as submetemos. Demoramos para entender como nossos filhos e netos conseguiram nos perdoar, em muitos casos nos tratando como heróis.

Heróis são eles, nossos familiares, que mesmo nos primeiros anos de sobriedade ainda seguem sofrendo. Eles precisam tratar da própria doença, a codependência, e ainda continuar aguentando nossas angústias desses primeiros tempos de abstinência. Esse tempo em que engatinhamos nos 12 Passos e buscamos identificar e domar nossos defeitos de caráter. E alguns de nós ainda seguem prepotentes, fazendo as coisas do seu modo. São muitos os que dizem com certo orgulho bradando em reuniões: “Fiz só o Primeiro Passo e estou conseguindo superar a doença. Só sigo com o propósito de não tomar o primeiro trago de 24 em 24 horas e isso me basta”.

Mas o A.A. tem um programa completo e acredito que deva ser cumprido integralmente para termos uma sobriedade plena, duradoura e feliz. Não por nós, mas também em respeito aos nossos familiares, que tanto desejam nos ver como homens melhores a cada dia. Eles sabem que lá dentro de nós há pessoas boas que devem aflorar. Essas mulheres fortes seguem sofrendo mesmo um pouquinho, como a ouvir uma torneira pingando em uma noite silenciosa. Mas mesmo as que conseguiram se recuperar, por tudo o que passaram, como diz um companheiro de A.A., essas mulheres têm uma cadeira reservada no céu.

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