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Ontem, por volta das 19h, nasceu meu sobrinho. Um lindo garotão. Tenho certeza de que aqueles momentos no hospital e que se perpetuam até agora são os mais felizes da vida de minha irmã mais nova e de meu cunhado. Dá para sentir isso. Flui deles. Sem inveja alguma, digo que gostaria de ter sentido isso há um ano, três meses e 23 dias. Foi quando nasceu minha garotinha. A coisa mais linda e meiga que Deus colocou no mundo. Embora tenha ficado muito emocionado, chorado e percebido a importância ímpar do momento, não senti o que minha irmã e meu cunhado estão sentindo. Eu não estava em estado de graça. Nem minha esposa. Eu, porque havia bebido naquele dia. Ela porque sabia que eu havia bebido e não agia como um homem de verdade. Como um pai responsável. Como uma pessoa digna daquele momento tão especial em nossas vidas.

Vou poupar vocês de detalhes. Não vêm ao caso. Não fiz nenhum grande fiasco. Longe disso. Mas deixei de fazer coisas que deveriam ser feitas. Pequenas coisas importantíssimas como estar perto dela, ajudar a decidir assuntos que ocorreram em cima da hora, avisar os familiares, estar mais junto, pegar na mão dela quando ela precisou. Não sei como isso pode ser reparado. Acho que não há reparação possível. Só o que posso fazer agora é ser um pai e marido responsável e presente daqui para diante.

Ela teve o bebê em um pequeno hospital de uma pequena cidade. Nesses lugares, as regras não são tão rígidas. Pude assistir ao parto (me enroscando todo naqueles fios que conectavam aparelhos à mãe), fui o primeiro a pegar nossa filha no colo, ainda ensanguentada, e fiquei com ela sozinho na sala de recuperação até que minha esposa fosse suturada e viesse amamentar pela primeira vez nossa pequena. Uma enfermeira pediu para eu deixar elas um pouco a sós e esperar no quarto. Em pouco menos de duas horas elas estariam lá. Eu sabia que, se insistisse um pouco, poderia ter ficado com as duas na sala de recuperação e participar daquele momento tão importante para nós três. Mas não. O doente alcoólico dentro de mim falou mais alto e me seduziu com uma garrafa de vinho que, confesso, tomei apenas um ou dois cálices. Voltei para o quarto e fiquei esperando. Por volta das 21h, elas chegaram.

Como tínhamos 37 e 38 anos, as enfermeiras nem se deram por conta que éramos pais de primeira viagem. Deixaram-nos sozinhos, com pouquíssimas instruções. Foi puro instinto. Passei a noite em claro trocando fraldas (nunca havia trocado) e acomodando nossa bebê ao seio para mamar. Eu não estava bêbado nem tonto, mas havia bebido e por isso ainda não me perdoo. Foi uma noite emocionante, mas poderia ser mágica. Ontem, com o nascimento do nosso sobrinho, minha esposa ficou sem jeito, com uma recordação triste no fundo da alma ao ver o parto de minha irmã, tão bem assistida pelo meu cunhado. Isso me machucou novamente.

É um daqueles momentos que não voltam mais e que precisamos nos perdoar, colocar a bola no chão e tocar a vida para a frente. Mas quem é alcoólico já passou por piores (eu também) e sabe que não é tão fácil assim. Muitas vezes, chega ser engraçado, não fosse trágico. Por isso, encerro este texto com um pouco de bom humor. Na reunião de Alcoólicos Anônimos de hoje, um companheiro com 26 anos de sobriedade, disse que tinha uma noiva insistente no casamento. Por três vezes foram ao cartório e o oficial negou-se a lavrar o casamento com o noivo completamente embriagado. Na quarta tentativa, nem o juiz de paz aguentou. Decidiu casar os dois mesmo com o noivo caindo de bêbado. Estão juntos até hoje, porém, segundo o companheiro, felizes há apenas 26 anos.