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Um velho consultor da clínica onde estive internado por três vezes antes de ter meu despertar espiritual e encontrar a sobriedade me disse certa vez que teríamos momentos plenos no caminho da recuperação. Naquilo estava implícito que nossa vida em abstinência não seria um mar de rosas e que teríamos de lidar com questões difíceis, mas que também que seríamos abençoados por instantes ou períodos de felicidade. Pois bem.

Nos meus últimos 10 anos de alcoolismo ativo, os piores de todos eles, não lembro de sequer um momento de felicidade. Tive, sim, episódios de euforia, de êxtase até. Mas de felicidade como eu consigo ver agora, não.

Aconteceu quando eu estava há exatos 14 dias sem beber. Vivia uma tranquilidade imensa depois do despertar espiritual. Com aquela paz que sentia, buscava ver no cotidiano algum motivo para ser feliz. Realmente me esforçava para achar graça nas coisas. “Tudo bem”, pensava eu, “a vida é isso aí mesmo. Tem o trabalho, as coisas para resolver, fazer comida, pagar as contas… e dar um passeio pelo parque ou comer pipoca assistindo a um filme na tevê com minha mulher e nossa filha. Ter esses momentos simples é viver feliz. Tudo que tenho de fazer é me reeducar para me sentir alegre com isso”. Graças a Deus, eu estava enganado.

Minha esposa havia proibido a creche de entregar nossa filha para mim caso ela não estivesse junto, com medo de uma recaída. Pois naquela sexta-feira, ela tinha um outro compromisso após o trabalho e se atrasou. Telefonou-me preocupada, pois a creche iria fechar e precisava que eu apanhasse a bebê. Fui. Caminhava pela rua meio sem jeito de ter de explicar que eu estava sóbrio e era o único que havia para apanhá-la. Mas na escola, ninguém lembrou da recomendação e de lá saí, faceiro, com minha filha amada no colo.

Cheguei em casa e esquentei uma comida. Ela papou tudo. Como minha esposa e eu ainda estávamos separados e eu não morava com elas, não tinha noção da rotina daquela criaturinha. Como a pequena adora percussão, coloquei um CD de música infantil, dei à ela uma lata de leite em pó vazia, uma escova de dentes e a peguei no colo para dançarmos. Ela batia na lata com a escova e gargalhava… Demorou um pouco para eu perceber, mas deparei comigo sorrindo de pura plenitude por estar dançando uma canção infantil no meio da sala com uma menina de um ano e três meses no colo. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Foi o primeiro momento feliz depois daqueles anos todos!

Quando minha esposa chegou, decidi ir correndo para a reunião de Alcoólicos Anônimos que já deveria estar no intervalo. Precisava contar aquilo para alguém. Quando entrei na sala, lá estava aquele velho consultor me chamando com um aceno. Ele estava naquela cidade naquela noite e decidiu ir a uma reunião, justamente naquele grupo, um dos 29 que existentes lá. No final, pude contar meu momento pleno para alguém, como eu queria. E para a pessoa que talvez mais eu quisesse contar. O Poder Superior me deu mais essa alegria.

Hoje à noite, dia 28 de novembro de 2014, esse homem abençoado vai receber sua ficha de 30 anos de sobriedade. E eu vou, feliz, dirigir por 175 quilômetros para estar na lá e dar-lhe um abraço de gratidão.

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