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man-looking-into-mirrorUm senhor alcoólico que admiro desde que o conheci há quatro anos está sóbrio há 31. Nesta sexta-feira, em uma reunião aberta de Alcoólicos Anônimos em que tive o prazer de ouvi-lo, ele lembrou de quando iniciou sua caminhada. Estava no fundo do poço. Não tinha posses e enfrentou na ala dos indigentes uma internação em Porto Alegre, a cerca de 110 quilômetros de sua cidade. Lá descobriu que era portador de uma doença chamada alcoolismo e, mesmo com o raciocínio extremamente debilitado, conseguiu entender o programa dos 12 Passos de A.A.

Prova disso é que, quando recebeu alta, decidiu procurar outros doentes como ele para tentar a única terapia que havia aprendido: a ajuda mútua por meio de reuniões. Não havia grupos de A.A. em sua cidade. Apressou-se em criar um. Seu legado hoje é admirado, pois alguns anos mais tarde fundou com os companheiros de caminhada uma das clínicas mais bem conceituadas no Rio Grande do Sul e que hoje, após 28 anos de atividade, salvou milhares de vidas, sem exagero.

No seu depoimento daquela noite, relatou as dificuldades que teve logo depois de deixar a clínica. Não tinha com quem falar, com quem trocar experiências e angústias cotidianas. A solução que encontrou foi conversar com o único alcoólico que conhecia e que estava disposto a viver uma vida sem álcool: o homem que havia do outro lado do espelho.

_ Eu não podia fugir daquele homem. Toda manhã, e várias vezes ao dia, olhava bem nos olhos dele e firmava o propósito de não beber naquele dia. Ele, por sua vez, encarava-me com uma disposição ainda mais firme e firmava o pacto comigo. Faço isso ainda hoje. Aquele alcoólico do outro lado do espelho passou a ser meu maior companheiro.

Muitas vezes, muitos de nós arriscamos a desculpa de não haver ou não conseguirmos ir a uma reunião em um determinado dia. Damos a nós mesmos a desculpa de não ter créditos no celular para ligar para um companheiro ou padrinho. O depoimento desse senhor, então desacreditado pela sociedade e, algumas vezes por ele mesmo, derruba qualquer desculpa esfarrapada que possamos encontrar para dizermos que estamos abalados em nossa recuperação. Os 31 anos de sobriedade desse homem dizem que é possível. Sempre é possível quando aceitamos a 3ª Tradição de A.A. (“Para ser membro de A.A., o único requisito é o desejo de parar de beber.”) e, é claro, o 1° Passo (“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.”).

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