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“Eu enlouqueci minha mulher!”. Frequentemente ouvimos essa frase em reuniões de Alcoólicos Anônimos. Eu mesmo já a proferi algumas vezes em meus primeiros tempos de A.A. A codependência é um estado terrível a que milhares de familiares de alcoólicos e dependentes químicos são submetidos. Em grupos de auto-ajuda, consideram-se doentes também, porém ainda hoje a codependência não é reconhecida formalmente como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS), responsável pelo Cadastro Internacional de Doenças (CID), no qual o alcoolismo, por exemplo, é classificado como F10 (Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool) e suas variações. Alguns estudiosos mais ousados dentre os reconhecidos no meio das publicações médicas no máximo atribuem à codependência um status de “construção social”.

Mas não é isso que vemos na prática. Temos pessoas realmente transtornadas mentalmente pelo convívio direto ou indireto, emocional ou não, com um alcoólico ou dependente de outras drogas. Graças ao Poder Superior, quase em concomitância com a criação dos primeiros grupos de A.A., em 1935, as esposas dos que buscavam recuperação em reuniões que ocorriam em casas de família começaram a perceber que também necessitavam de ajuda mútua e que podiam usar os princípios dos 12 Passos de A.A. em suas vidas. Surgiram assim os grupos de Al-Anon.

Para quem nunca ouviu falar, Al-Anon, e Alateen (para adolescentes) são irmandades de familiares e amigos de alcoólicos que podem ainda estar bebendo, estar em sobriedade (frequentando A.A. ou não) ou mesmo ainda daqueles que não fazem mais partes de suas vidas. Eles se reúnem para resolver seus problemas comuns de medo, insegurança e os relacionamentos difíceis ligados à doença do alcoolismo.

Hoje já não digo mais que tornei minha mulher uma louca. Mas sei que a deixei doente. Com pouco tempo de sobriedade, ainda está difícil nossa convivência. Nos amamos, gostamos de estar juntos, ela sabe que estou firme no propósito de não beber, que estou fazendo o programa de 12 Passos e tudo mais o que é sugerido em Alcoólicos Anônimos, mas… o medo de uma recaída ainda persiste nela. Quase diariamente ainda ouço frases como: “Tu não vais mais beber mesmo?”, “A vida vai dar certo daqui para frente?”, “Aqueles tempos de horror não vão mais voltar?”, “Eu vou conseguir voltar a ter felicidade na vida?”, e assim por diante.

Nessas horas, preciso buscar lá do fundo da minha sobriedade (adquirida graças ao Poder Superior por meio de um despertar espiritual) forças para largar o chicote da culpa e tentar acalmá-la. Muitos de nós, que ainda não estamos firmes no propósito primordial de não voltar a beber, ou que não experimentamos um despertar espiritual, ou que ainda mantemos reservas, acreditando que ainda podemos beber, que ainda não perdemos o domínio de nossas vidas para o álcool, acabamos por sucumbir. E pior, tendemos a colocar a culpa da recaída nos familiares, por não nos darem o apoio que necessitamos. Esquecemos que decidimos e precisamos parar de beber por nós mesmos, porque acreditamos que nossa vida tem valor e que não temos o direito de destruir nem nossa existência, nem a serenidade de quem mais nos ama: nossos familiares.