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Em uma eterna busca pelo que não somos. À busca de algo maior, melhor ou simplesmente de algo diferente. Muitas vezes, nem tanto por não gostávamos do nosso lugar atual ou do que éramos, mas por querer algo mais que nem sabemos o que é, nem sabemos se existe. É por isso que bebíamos. Eventualmente tínhamos lampejos ou vislumbres. Procurávamos loucamente por uma vida mais sensata mesmo sabendo que ela nunca aconteceria se estivéssemos vivendo uma realidade alcoólica. Tínhamos medo de nossas limitações humanas, evitávamos admitir que éramos finitos, limitados no tempo e no espaço. E bebíamos, mesmo sabendo que assim fazendo estaríamos apressando nosso fim. Queríamos ser mais deuses do que animais e nos tornávamos cada vez mais irracionais, incompreensíveis, desvalorizados.

Os desafios nos inquietavam. A vida cotidiana tornava-se cada vez mais frustrante. Nossa trajetória era insuportável. Tínhamos total percepção de que éramos mais do que podíamos ser. E o álcool nos colocava, mesmo que por alguns instantes nesse patamar tão sonhado. Por isso bebíamos. Mesmo sabendo que seria ilusão. Mesmo tendo a nítida certeza de que o viver alcoólico nos atrasaria cada vez mais. Mesmo sabendo que seria desastroso. Mesmo assim, muitas vezes entre lágrimas, bebíamos. Sim. Cheguei a beber chorando antes de voltar para casa depois de um dia de trabalho. Vários alcoólicos hoje em sobriedade também relatam isso. E isso não é nem de perto o pior dos horrores que fazem parte da vida de um alcoólico na ativa.

Na ativa, a ressaca moral é um dos piores momentos. O despertar no dia seguinte. A clara noção de que, mesmo não lembrando nada ou quase nada do que fizemos algumas horas atrás, o que quer que tenha sido feito ou dito foi algo que não se queria. É um horror encarar uma esposa, marido, filhos, pai, mãe ou quem quer que seja. Encarar o espelho. Encarar a realidade que agora está pior do que a do dia anterior… melhor seguir bebendo… Para muitos de nós parecia ser a única saída.

Depois de algum tempo de abstinência, o horror piora. Ou melhor, conseguimos perceber com um maior entendimento as tragédias familiares, profissionais, pessoais que causamos. E com esse horror diante dos olhos, percebemos que em nossas mãos há um chicote que não pode mais atingir a ninguém além de nós mesmos. E muitos de nós o usamos diariamente. A culpa do alcoólico em recuperação que não segue os 12 Passos sugeridos por Alcoólicos Anônimos o coloca em uma vida de tormentas. O ambiente familiar, profissional, e até o pessoal melhora, claro. Mas invariavelmente vemos em reuniões de A.A. companheiros se chicoteando. Eles leem no quadro preso à parede as sugestões de se fazer um destemido e minucioso inventário moral, uma lista de pessoas a quem prejudicaram, a importância de se fazer as reparações necessárias e procurar por meio da prece e da meditação um contato maior com nosso Poder Superior. Mas muitos, muitos mesmo, parecem ignorar. Seguem suas vidas em abstinência por 20, 30, 40 anos com o chicote nas mãos. Alguns deles ainda revelam nas entrelinhas dos seus depoimentos que aquela busca a que me referi no primeiro parágrafo ainda sobrevive em suas mentes e almas.

Mas ainda há um horror pior. É aquele visualizado e sentido pelo alcoólico em recuperação que alcançou a sobriedade por meio de um despertar espiritual e da vivência diária dos 12 Passos e das 12 Tradições de A.A. Esses conseguem, além de ver, sentir lá no fundo de suas almas as dores sofridas e infringidas durante suas vidas alcoólicas. Mas de suas mãos o Poder Superior arrancou os chicotes. Não há culpa, há responsabilidade. São responsáveis pelos seus atos passados. E como homens e mulheres verdadeiramente íntegros, usam de princípios espirituais como honestidade, mente aberta e boa vontade para corrigir dia a dia seus defeitos de caráter e viver uma existência feliz e em paz consigo mesmo e com seus familiares. Além do “Evitar o primeiro gole de 24 em 24 horas”, seguem também outro lema: “Viver e deixar viver!”.

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