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Acredito que nós alcoólicos, pelo menos é o que sinto e é o que tenho ouvido de outros iguais, passamos a nos dar conta de certas coisas mais do que importantes depois do despertar espiritual. Ao pararmos de beber, ao experimentarmos as primeiras semanas de abstinência, os primeiros tempos de sobriedade, em todos esses períodos vamos tendo percepções novas e tateando detalhes pequenos e tão importantes que desprezávamos ao estarmos vivendo uma vida alcoólica na ativa. Mas após o despertar, segue-se um momento mágico. Percebemos o detalhe do detalhe. Enxergamos as minúsculas fagulhas que fazem a vida ser prazerosa. E então, todos os dias, a quase toda a hora, temos momentos em que, mesmo sem nos culparmos, apertamos os lábios e sem esperar resposta, perguntamos para nós mesmos: como é que por tanto tempo eu privei minha família, as pessoas do meu convívio e eu mesmo desses momentos mágicos?

Partilhei sobre isso na primeira parte de uma reunião de Alcoólicos Anônimos em que havia 164 pessoas. Um número bastante expressivo para nossa realidade regional. No intervalo, vários companheiros vieram falar comigo e dizer que sentiam o mesmo, que gostaram do depoimento. Nos olhos deles percebi que realmente se sentiam assim. Que aqueles olhos podiam ver as fagulhas mágicas. E, bem no fundo, notei em seus sorrisos uma certa candura como que acolher um recém-chegado. No final da reunião, eu já estava abrindo a porta do carro no estacionamento quando fui abordado por um companheiro que conheço há um bom tempo, mas que nunca tivemos a oportunidade de conversarmos. Ele veio gargalhando e com os olhos marejados. Apertou firme minha mão e disse em tom de alegre deboche: “Tu descobriste o segredo, não é? Tu descobriste o segredo!” e se foi, rindo.

Pois se há quem diga que a vida é aprender a lidar com perdas e ganhos. Então o que dizer de quem deixou de lado e privou sua família da essência da alegria por pelo menos 22 anos? Ontem fui à minha primeira reunião de pais na escola. Minha filha tem um ano e quatro meses. Está na escolinha infantil desde julho. Na época, eu estava internado em um centro de recuperação. Naquela pequena sala havia uns 15 pais e mães apreciando as pinturas e outros trabalhos que seus filhos fizeram no semestre, recebendo informações sobre o que farão no próximo, coisas assim. À exceção de um casal, eram todos pais de primeira viagem, assim como minha esposa e eu. E eles falavam daqueles assuntos todos com uma intimidade incrível. E eram todos mais jovens pois em função do meu alcoolismo, minha esposa e eu retardamos ao máximo a vinda do bebê. E cheguei a pensar que estava faltando algo no meu papel de pai, pois não estava entendendo quase nada daquela linguagem que aqueles jovens pais e mães falavam. Foi angustiante.

Um dia de sol, uma caminhada, um abraço. Um sanduíche caprichado, um filme interessante, uma soneca revigorante. Uma boa conversa, um sonho que lembramos, um pequeno desejo atendido. Ajudar alguém, receber uma gentileza, fazer uma prece em pleno congestionamento. Quantas fagulhas perdidas. Quantos momentos mágicos deixados para trás… E aí vem a Oração da Serenidade: “Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar…”.

Tenho um companheiro de A.A. que sempre repete no final dos seus depoimentos: “Só quem teve no fundo do poço dá valor à água limpa que bebe”. Hoje eu dou valor. Só por hoje quero fazer por merecer poder ver as fagulhas da alegria, mesmo nos momentos difíceis. Só por hoje vou me permitir ter momentos mágicos. E que o Poder Superior me dê a graça de conseguir compartilhar tudo isso com meus familiares e amigos, com quem esteve comigo sempre, principalmente quando nem eu mais achava que merecia.

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