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De acordo com a literatura médica, com várias teorias psicológicas e até nas entrelinhas de alguns princípios da obra de Alcoólicos Anônimos, podemos afirmar veementemente que há, sim, alcoólicos que nunca beberam um só gole de álcool na vida. São pessoas que possuem todos os defeitos de caráter que caracterizam a doença e que, uma vez experimentando a droga, passarão em pouquíssimo tempo a venerar o elixir da vida plena que tanto imaginavam existir. Encontram no álcool a saída para suas angústias existenciais e passam a desenvolver a doença em sua forma mais brutal, o que comumente se chama de alcoólico na ativa.

Não sei o que é pior: conviver com um alcoólico seco ou com um bêbado inveterado. O primeiro é uma pessoa geralmente arrogante, prepotente, egoísta, materialista, de mente fechada, desonesta… mas que consegue de forma sutil encobrir esses defeitos de caráter. E seus amigos e familiares pouco podem fazer a não ser perecer na convivência com esse doente. Como todo o alcoólico, consegue manipular situações e pessoas de modo a mostrar que o problema não é ele, mas a sociedade ou mesmo as situações da vida e pessoas que o cercam. Não bebe, cria problemas, mas as pessoas podem apontar a causa, a ingesta de álcool, e passa a vida destruindo anseios, humilhando paixões e até mesmo abafando sonhos de quem convive com ele.

O alcoólico na ativa é o mesmo homem (ou mulher) citado acima. Só que bebe. E por fazer uso de bebida alcoólica, mostra todo esse lado perverso principalmente quando está sob o efeito da droga. Então as pessoas ao seu redor conseguem apontar o que acreditam ser a causa de todos os problemas: o álcool. Mas, por incrível que pareça, o problema não é a bebida. Ela funciona apenas como um promotor que aponta os defeitos do réu. O estado etílico revela a face tão inteligentemente oculta de uma pessoa que precisa rever seus conceitos e reestruturar sua vida e descobrir seus caminhos.

Mas todo o alcoólico, assim como todas as pessoas, lá em seu íntimo é uma pessoa maravilhosa. Diria que, mais do que as outras pessoas, é um ser doce, desesperado para deixar brotar de dentro de si esse homem ou mulher decente, que quer viver em paz, mudar seus caminhos… pelo menos deixar de interferir na felicidade dos que o cercam. Alguns desses que nunca beberam, ou que ainda conseguem controlar o uso do álcool, buscam psiquiatras, psicoterapeutas, psicólogos, clérigos, gurus… Alguns conseguem bons resultados. Alguns.

Já para o alcoólico que bebe muito ou diariamente, o caminho parece mais fácil. Pelo menos muitos têm a graça de conhecer a obra divina de Alcoólicos Anônimos e dela fazerem uso total. Ainda assim, nem todos têm a honestidade, a humildade e a mente aberta e outros requisitos fundamentais para realmente trilharem o caminho dos 12 Passos. O simples caminho, mas de tão difícil compreensão. Não fazem o que é sugerido pela obra. Não se preocupam na busca pelo despertar espiritual, não fazem seu destemido inventário moral, não se preocupam com as reparações, não procuram o contato diário com o Poder Superior de sua compreensão… e vivem, mesmo sem beber, a vida do alcoólico que nunca bebeu. Estão em salas de A.A. amargurados por uma vida que, mesmo estando melhor, não é aquela que o elixir proporcionava. Mal sabem eles que o segredo está bem ali, em um quadro pendurado na parede indicando passos para a vida em paz com que tanto sonham.

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