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Não estou lembrado. Mas certa vez li em algum lugar ou ouvi em algum depoimento a frase “sou grato a Deus por ser um alcoólico”. Confesso que aquilo ficou gravado na minha memória e, como entusiasta e otimista que sou, sempre imaginei que, se aquilo fosse verdade, um dia eu também poderia proferir a mesma frase com toda a honestidade de minha alma. Pois essa hora chegou. E mais: a cada dia que passa, sou mais grato ainda ao meu Poder Superior por ser portador dessa doença física, mental e espiritual, incurável, progressiva e fatal, chamada alcoolismo.

E nesse estado de espírito não há nada de comparação com outras enfermidades, muito menos de jogo de palavras ou vã retórica. Embora o alcoolismo seja uma doença (CID F10.0) que, como todas as variações de dependência química, possa ser estacionada sem o uso de medicamentos, não é essa a motivação para minha felicidade ao reconhecer  internamente que sou um alcoólico. Sou grato, pois essa obsessão mental da qual sou acometido, apesar de não ter cura, pode ser, além de abrandada, passar do limite da normalidade e atingir estados de plenitude mental e espiritual se nós doentes seguirmos o simples programa de 12 Passos descoberto em 1935 por dois simples alcoólicos.

Quase 80 anos depois, a ciência, por mais que tenha tentado, ainda não conseguiu entender como o método funciona, mas ele tem salvado milhares de vidas, inclusive a minha. Não é meu intento explicar aqui o programa de Alcoólicos Anônimos, até porque acredito que não tenha tamanha capacidade. Apenas quero dizer que essa obra que considero divina (uma vez que não é científica) tem me tornado um ser humano melhor a cada dia. Cada princípio espiritual implícito nos passos, como Honestidade, Mente Aberta, Boa Vontade, Humildade… caso sejam adotados com “sincero desejo” de se ver livre da obsessão, faz brotar a cada minuto uma pessoa melhor de dentro de qualquer um que os sigam.

O programa apenas sugere que olhemos para dentro de nós mesmos. Apenas sugere que sejamos honestos, reconheçamos nossos defeitos de caráter, nossa finitude, nossa pequenez diante de um todo maior, que “tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”. Mostra-nos a importância de fazermos um “destemido e minucioso inventário moral de nós mesmos”. E que reconheçamos nossas falhas e defeitos de caráter “perante Deus, nós mesmos e perante outro ser humano”. Sugere que nos prontifiquemos diariamente a melhorar a nós mesmos e acreditar e rogar a Deus para que ele remova esses defeitos, para que ele nos livre de nossas imperfeições. Sugere que tenhamos a honestidade e coragem para fazer “uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispuséssemos a reparar os danos causados”, para que façamos “reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem”.

Quando nos prontificamos a encarar esse programa como filosofia de vida, entregamos nossa “vida e nossa vontade” nas mãos de um Poder Superior e acreditamos que ele possa nos conduzir em um caminho de sanidade, de sobriedade plena, sem sofrimentos, sem dores pela privação das substâncias que nos aprisionavam, torturavam, escravizavam. É sugerido que melhoremos a cada dia nosso contato com Deus “na forma com que o concebemos” e que peçamos a Ele “apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade”. Que continuemos diariamente a fazer nosso inventário moral e admitamos prontamente nossos erros.

Por fim, uma última sugestão: para que, tendo experimentado um despertar espiritual, que transmitamos a mensagem àqueles que ainda sofrem e que continuemos a praticar esses princípios em todas as nossas atividades.

Sinceramente, eu duvido que eu me dispusesse a começar a fazer tudo isso caso minha vida não estivesse em risco, caso não tivesse passado por pelo menos quatro situações claras de morte, caso não tivesse tido um despertar espiritual que me mostrou todo o horror que o álcool me fez cometer a mim e a quem eu mais amo. Por isso sou imensamente grato a Deus por ser um alcoólico. Pois foi por meio dessa doença que descobri uma nova maneira de viver. Recebi gratuitamente ferramentas espirituais para que eu possa ser a cada dia um homem, um amigo, um irmão, um filho, um marido e, principalmente, um pai melhor e em paz.

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