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Hoje é 31 de dezembro. Estou de folga e acordei ao lado de minha filhinha de 1 ano e quatro meses. Não posso dizer com certeza, mas parece que aqueles olhinhos se abriram juntos com os meus, no mesmo momento. E o sorriso foi mútuo. Lembram do que comentei no post dos momentos plenos? Pois esse foi mais um dos meus momentos plenos de alegria nestas minhas poucas 24 horas de sobriedade. E lá do fundo de minha alma veio aquela pequena frase que eu disse para mim mesmo e para minha pequena: “Bom dia, feliz último dia do ano!”.

Só depois que aquilo me saiu meio sem querer e enquanto rolávamos pela cama brincando de acordar é que fui tentando perceber o que queria dizer. Comecei este ano tomando pelo menos uns seis medicamentos psiquiátricos diferentes. Pouco tempo antes, havia tido um ataque cardíaco por misturá-los com álcool. Em fevereiro fui internado em um hospital psiquiátrico após um episódio fortíssimo de síndrome do pânico. Em março, quando recebi alta, tive um surto tomei álcool puro enquanto brincava com minha filha, que na época tinha seis meses. Acordei amarrado em uma UTI sem saber o que havia ocorrido. Em abril, fui internado em um centro de tratamento para alcoolismo. No final de maio depois de um tratamento de 28 dias, recebi alta. Exatamente sete dias depois, recaí e fui internado novamente, desta vez em coma e praticamente com falência hepática.

Saí da clínica em agosto. Um morto-vivo, ou um vivo-morto. Dos quatro episódios de quase-morte que tive o desprazer de sofrer em toda minha vida, três haviam ocorrido em pouco mais de seis meses. Minha esposa (ex?) havia mudado de residência e levado nossa filha com ela. E lá estava eu. Em um inverno frio da Serra Gaúcha, em uma casa semi-mobiliada, em uma cidade na qual eu não conhecia praticamente ninguém, com minha família e ex-esposa a 110 quilômetros de distância, demitido do meu cargo no trabalho, de licença médica, e com um psicanalista doido que dizia para eu “seguir meus sonhos”!

Realmente, ainda não entendo como consegui sobreviver até meu despertar espiritual, em 30 de outubro. Fato é que, depois dele, entrei em uma espiral positiva impressionante e os 12 Passos de Alcoólicos Anônimos começaram a funcionar de uma forma surpreendente. Hoje, 63 dias depois (que parece pouco, mas para mim, que não conseguia permanecer em abstinência nem por uma semana, é muito), tenho amigos verdadeiros, mudei de residência e vivo perto da minha família, estou me reconciliando com minha esposa, fui transferido para um emprego mais calmo e melhor, entrei em forma física, recuperei boa parte da minha saúde, minha mente voltou a trabalhar impressionantemente melhor e, principalmente, acredito firmemente que meu Poder Superior está me conduzindo à sanidade… Assim, tenho o prazer de, no último dia do ano, ter a confiança da minha esposa que foi trabalhar e me deixou sozinho com nossa filha. E então eu pude acordar ao lado daquela graça de Deus e perceber que para mim, muito mais importante que desejar feliz ano novo para todo mundo logo mais à noite, é desejar agora de manhã um feliz último dia do ano para nós dois.

É assim que funciona, para mim e para milhares de alcoólicos e dependentes químicos do mundo todo. Só por hoje, só por mais 24 horas, para sempre.

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