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O ano acaba de começar. Ou melhor, 2015 se iniciou. Para mim, mais do que um ano, mas uma nova vida teve início há 63 dias, quando tive meu despertar espiritual. Depois de 22 anos de sofrimento em função do alcoolismo, dos últimos 10 anos de horror, e ainda dos últimos quatro ou cinco anos de tentativas de parar de beber e de internações, sobreveio a paz. E desde então ferramentas espirituais como a gratidão, a humildade, a honestidade e a boa vontade precisam ser usadas diariamente sob o risco de eu sucumbir.

Parece trágico demais, meio exagerado, mas não é. Assumi uma responsabilidade comigo mesmo e com meu Deus. E essa responsabilidade exige de mim o mínimo de respeito. Sim, respeito pela minha vida e pela paz das pessoas que me amam. Sou grato, em especial à noite, antes de dormir, pelo dia em sobriedade, seja ele como for. Costuma-se ouvir em Alcoólicos Anônimos que não trocamos o nosso melhor dia na ativa pelo pior dia sóbrios. Ao acordar, preciso exercitar no mínimo a humildade e a aceitação. Necessito aceitar que há um Poder Superior a mim mesmo que pode me conduzir à sanidade e ser humilde o suficiente para rogar a ele que me permita mais serenas 24 horas. Rogo a Ele “apenas o conhecimento de sua vontade e forças para realizá-la”. Então, durante o meu dia, preciso ser merecedor, ser honesto comigo mesmo. Pois quando fiz meu Terceiro Passo, entreguei não somente minha vida, mas minha vontade ao meu Poder Superior. E sei bem que a vontade dele é minha felicidade e preciso de lucidez para trilhar esse caminho. No mais, o que vier pela frente deve ser encarado com fé e boa vontade.

Confesso que nessas poucas porções de 24 horas em que me encontro em sobriedade nem tudo foi sereno. Tive várias tarefas incomuns, minha vida virou de pernas para o ar, muitas coisas não saíram como o planejado, sem contar as inimagináveis. Momentos em que precisei juntar as mãos, aproximá-las do rosto e, entre uma lágrima e outra, respirar fundo. Mas relato isso apenas porque ocorreu mesmo, sem autopiedade. Meus problemas não são maiores nem menores do que os dos outros. E o uso do álcool não representa solução para eles. Ao contrário, sempre piorou tudo. E veja lá que piorar nem é bem o verbo adequado. Deve existir um verbo mais pesado que não me ocorre agora.

O uso doentio do álcool foi a tragédia de minha vida. Pior ainda, tragédia da vida das pessoas que me amam. E continuará sendo, mesmo estando eu em sobriedade e praticando minha recuperação com fervor e responsabilidade. Mesmo depois que se fecharem algumas feridas, ficarão cicatrizes. Mesmo quem não sofreu com o horror da minha ativa ainda poderá notar um homem com queloides, com vestígios de um ladrão de sorrisos.

Pois bem, mas Deus colocou meus olhos vidados para frente. E é o dia de hoje que importa. Por acaso, o primeiro dia do ano. Alguns poucos estão agradecendo as dádivas dos últimos 365 que passaram. Muitos celebram a chegada de um novo ano. Para mim, ano novo só daqui a 302 dias, quando terei completado verdadeiramente um ano. Mas isso não importa. Estou feliz é por este dia mais do que especial que tenho a graça de passar, sóbrio e honrado, ao lado de quem amo.

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