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Estamos em janeiro, e uma das tarefas que previ para este ano é, a cada mês, estudar um dos passos de Alcoólicos Anônimos. Tenho refletido sobre o primeiro (“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool e que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”) e notei que frequentemente, em depoimentos de companheiros em reuniões, ouço falar sobre ele. Muitos fazem questão de lembrar da importância da segunda sentença do enunciado, que fala sobre a perda do domínio sobre a vida. Ainda não estudei porque Bill W. e Dr. Bob usaram o verbo no particípio passado (“we were”, ou “nós éramos” e “had become”, ou “tínhamos”) ao escrever o passo. No meu entendimento, somos impotentes perante o álcool. E, por extensão, perdemos o domínio sobre nossas vidas.

E é aí que ocorre umas interpretações no mínimo interessantes do passo. Muitos dos companheiros em seus depoimentos admitem sua impotência perante o álcool, mas logo depois, falam que, graças ao A.A., ao programa de Doze Passos, aos companheiros, ao Poder Superior, enfim, dizem que finalmente agora recuperaram o domínio sobre suas vidas. No meu entendimento, a admissão completa do Primeiro Passo implica admitir a perda permanente do domínio sobre a própria vida. Quem tem a coragem de usar literalmente no passado a expressão “tínhamos perdido” também pode se perder no raciocínio e usar também no passado a expressão “éramos impotentes” e, por consequência, passar a crer que não é mais impotente.

Desculpem-me quem pensa diferente, mas no meu entendimento, aceitar o Primeiro Passo é admitir a “derrota completa”, como diz no texto explicativo do passo no livro “Os Doze Passos e as Doze Tradições”. Perdemos o domínio. Não mais o teremos. Se ousarmos acender a vela novamente, seja a do beber, seja a do querer gerenciar sozinhos nossas vidas, ela vai começar a queimar de onde parou.

No dia em que me dei por conta disso, veio-me a pergunta fatal: quem então vai conduzir minha vida? De quem ou do quê sou dependente para viver? A resposta, para mim, estava logo abaixo na lista dos passos. O segundo diz “Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia nos devolver à sanidade” e o terceiro, que “Decidimos entregar nossa vida e nossa vontade aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos”. Aí estava a resposta para mim. Deus é quem deveria estar no comando, caso eu aceitasse, caso eu decidisse dar mais dois passos nesse caminho em direção à sanidade.

Realmente, admito minha derrota na gerência de minha vida, decidi entregá-la aos cuidados de Deus. Mas o mais prático do Terceiro Passo é entregar a “vontade”. Se entrega a vida, entrega tudo. Por que então Bill e Bob destacaram a vontade ao escrever o passo. Para mim, isso é importante. Eu costumava beber preferencialmente em lojas de conveniência. Ontem, no segundo dia em que estava residindo (sozinho) no apartamento novo, decidi comprar algo congelado para comer, pois só o microondas estava instalado. Então caminhei cerca de 200 metros até a loja mais próxima já com o pensamento focado na recuperação, domando minha memória química. Tudo estava certo até eu perguntar até que horas a conveniência ficava aberta. “Trabalhamos 24 horas”, disse a atendente. Aquela resposta me atingiu em cheio. No mesmo instante minha mente maquinou que a qualquer hora da madrugada eu poderia levantar e buscar cerveja. Eu não estaria “protegido” a nenhuma hora do dia ou da noite.

É até engraçado, mas foi isso que ocorreu. Então tive de usar os raciocínios que acabei de citar sobre os passos. Eu havia entregado minha vontade aos cuidados de Deus. E certamente Deus não quer que eu saia da minha cama durante a noite para beber.

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