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Em recuperação, tenho notado mesmo em depoimentos de companheiros com muitas e muitas 24 horas de sobriedade, que há momentos em que uma certa sensação de insegurança, medo e até pavor aparece quase que inesperadamente. Por mais que tenhamos o cuidado de viver com disciplina, programando nossas tarefas do dia a dia, agendando nossa próxima reunião de Alcoólicos Anônimos, há momentos em que nos sentimos instáveis. Nessas horas, cada um deve ter em mãos, ou melhor, em mente, suas ferramentas próprias para superar o momento e voltar ao caminho da serenidade.

Nesses últimos 83 dias que se passaram após meu despertar espiritual, experimentei essa instabilidade duas vezes. Nas ocasiões, foram “sessões” de cerca de 15 minutos. Na gíria, “bate um pânico”, uma sensação de insegurança e um acesso de choro. Nos meus últimos 10 anos de ativa, eram esses os sintomas que sinalizavam o princípio da recaída. Agora acredito ter aprendido a lidar com eles e voltar ao normal, à paz e serenidade que estou experimentando em minha vida sóbria, fundamentalmente devido ao meu despertar espiritual.

Há muitos companheiros que, nesses momentos, quando sentem seus sintomas específicos (cada um tem um tipo de “dor” diferente), utilizam a Oração da Serenidade como um mantra, repetindo-a várias vezes até o pavor passar. Outros ainda (aqueles que ainda têm) conseguem se ver livre da opressão telefonando para seus padrinhos. Há aqueles que carregam providencialmente um ansiolítico no bolso e outros ainda que explodem mesmo, colocam suas raivas, seus medos, suas angústias para fora, doa em quem doer, atinja a quem atingir.

Deve haver, claro, dezenas de outras situações e métodos inusitados criados pelas mentes criativas dos alcoólicos em recuperação. Pois para mim, o que está resolvendo é um método que aprendi em uma dessas palestras online sobre coaching, desses profissionais que trabalham gerenciando carreiras ou equipes corporativas. Então, quando bate o pânico, quando não sei o que fazer, proponho a mim mesmo duas perguntas: “se eu soubesse, como (ou o quê) faria?” e “tudo bem, não sei mesmo como faria, mas se meu consultor (ou companheiro com anos de sobriedade e em que eu confio) estivesse na mesma situação que eu, o que ele faria?”.

Não digo que a angústia se esvaia em um passe de mágica, mas que as dúvidas somem e um norte se estabelece, você pode ter certeza. Por esse motivo, considero (ou melhor, reitero, uma vez que essa é uma das maiores sugestões de A.A.) que a grande base para uma recuperação segura é a frequência à reuniões, visitas à clínicas e muitas conversas com companheiros que já estão há mais tempo na caminhada da sobriedade. É a esses que sou grato hoje, pois nesses dois momentos em que fiquei abalado, foi pensando no que esses bons companheiros fariam, é que consegui me restabelecer.