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Hoje, pela primeira vez nesses últimos 10 anos de luta contra o alcoolismo, chego a três meses de sobriedade. Noventa dias se passaram desde meu despertar espiritual e acredito que agora consegui colocar a cabeça para fora do poço no qual eu estava metido. A paisagem é inacreditavelmente nova e conhecida ao mesmo tempo. As coisas que vejo são as mesmas, mas a perspectiva é completamente diferente. Não estou com medo nem ansioso. Sinto-me protegido pelo meu Poder Superior, pelos meus companheiros e pela obra divina de Alcoólicos Anônimos. Mas sei que a responsabilidade é toda minha. Agora tenho poder para tomar decisões e isso sim é que deve ser encarado com todo o cuidado do mundo. Dessas decisões depende a minha vida e a felicidade da minha família e de todos aqueles que me amam, daqueles que não me abandonaram e que até mudaram suas vidas para me apoiar. A eles serei eternamente grato.

Reitero que, graças ao meu despertar espiritual, não senti vontade de beber em nenhum momento nesses três meses. Mas também confesso que estou quase sem unhas por escalar as paredes desse poço escuro. Não foi fácil compreender as tarefas, encarar as muitas mudanças, suportar os desafios que só foram vencidos porque aceitei as sugestões do programa de A.A. e procurei ter mente aberta e humildade para rogar a Deus a boa vontade necessária para chegar até aqui.

E se cheguei até aqui, é porque confiei também na primeira, das 12 Promessas de A.A.: “Se formos cuidadosos nesta fase de nosso desenvolvimento, ficaremos surpresos antes de chegar à metade do caminho”. E nela salta-me aos olhos e ao coração a palavra “cuidadosos”. Ser cuidadoso e disciplinado é uma das coisas que mais me ajudou nessa escalada. E também por isso sou grato principalmente aos meus mestres Ingo e José Pedro que com sabedoria e compaixão estiveram ao meu lado explicando o que para mim era totalmente incompreensível. Foram eles que me fizeram acreditar na quarta promessa: “Compreenderemos o significado da palavra serenidade e conheceremos a paz”.

Hoje à noite, minha esposa e minha filhinha me entregarão uma ficha azul, a minha permissão para colocar as mãos na borda do poço e dar o impulso para fora. E novamente tenho de dizer que sou grato. Agradeço à minha esposa por enfrentar o desafio de me ajudar da forma correta, sem assumir minhas responsabilidades, de “tomar a firme resolução de não superproteger” (1), de praticar o desligamento com amor sugerido em Al-Anon, “respeitando a si mesmo e estabelecendo limites” (2). Ela conseguiu entender que não tem responsabilidade pelo meu alcoolismo, que, dolorosamente, entendeu que nada podia fazer para eu parar de beber e que me entregou ao Poder Superior e aos meus companheiros de A.A. para que eu entendesse, no meu fundo de poço mental, espiritual e físico, que eu não podia lutar sozinho, e que não era dever dela fazer as tarefas que cabiam a mim. Só Deus sabe como sou grato a isso.

Pois bem. Sigo agora, ainda meio ofuscado pela luz de fora do poço, para um novo modo de vida que já começou. Para encarar a série de novas tarefas para ter uma vida familiar feliz. Ainda meio sem jeito, parto para agora organizar minha vida com confiança e criar um clima emocional melhor em meu lar. Para isso, confio novamente na obra divina de A.A., principalmente na 11ª e na 12ª promessas: “Saberemos, intuitivamente, como lidar com situações que costumavam nos desconcertar” e “Perceberemos, de repente, que Deus está fazendo por nós o que não conseguíamos fazer sozinhos”.

Novamente, muito obrigado a todos que me ajudam. Tenham fé. Minha vida realmente foi modificada.


  1. Grupos Familiares Al-Anon. 12ª edição, pág. 9.
  2. Abrindo Nossos Corações, Transformando Nossas Perdas. 2ª ed., pág. 37.
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