Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Uma antiga propaganda de biscoitos brincava com a ambiguidade: vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Em Alcoólicos Anônimos, sugiro: é preciso frequentar reuniões para adquirir serenidade ou é preciso serenidade para frequentar reuniões? Ao fazermos parte de um grupo de A.A., precisamos ter em mente que naquela sala estão reunidos apenas pessoas com dezenas de defeitos de caráter. E que estão ali justamente por isso. E que cada um de nós somos um desses doentes. E que essa mistura pode ser altamente indigesta.

Em um primeiro momento, principalmente na visão do recém-chegado, quase sempre muito bem recebido, a convivência com aquele punhado de companheiros parece o melhor dos mundos. Gente que te compreende, que “fala tua língua”, que viveu as mesmas situações que viveste e, principalmente, que sente o mesmo que tu sentes. Mas não é preciso mais do que um ou dois meses de convívio para que comecem a ocorrer situações incômodas em que é preciso usarmos todo o equilíbrio que ainda nos resta, fazer exercícios de paciência, ter muita calma, mansidão, amabilidade, ternura até! Muitos podem me criticar por esse artigo, mas afirmo (quase generalizando): é bastante complicada a convivência em um grupo de A.A.

Dia desses, conversando com um companheiro de 90 anos, 33 de sobriedade e de frequência em grupos, tive confirmação do que disse acima. Ele viu companheiros trocando de grupo uma, duas, três, quatro vezes e… recaíndo por deixar de frequentar as reuniões que tanto os incomodavam. Também vi e continuo observando situações parecidas. Mas grupo é assim mesmo. Há que se ter serenidade. Absorver o que é bom, o que te ajuda, e descartar o restante, o que te intoxica. Sim, há depoimentos, há companheiros que intoxicam. Mas eles precisam estar ali. Eles estão pedindo ajuda. Quem sabe nós também não somos os intoxicadores de alguém?

O único problema é que há uma boa parte que não vai mudar, que não quer melhorar. São os que não se interessam pelas sugestões do programa de A.A., não se interessam em estudar e vivenciar TODOS os 12 Passos, não buscam seu despertar espiritual e, creiam, até se vangloriam de seus defeitos de caráter. Sim, inclusive há um site que na secção “Alcoólicos Anônimos” vende produtos com os dizeres “Eu amo meus defeitos de caráter” (clique aqui para ver).

Bom, mas, parafraseando Roberto Carlos: é preciso saber conviver. Eu acho que estou conseguindo. Depois de vagar por vários grupos, encontrei um no qual, mesmo não sendo tão bem quisto (afinal, ninguém é obrigado a gostar de mim), consigo levar a minha recuperação muito bem. Gosto muito da maioria dos depoimentos e tenho meu espaço quando preciso. Aprendi a ignorar a falta de bom senso de alguns. Só tive problemas ontem, quando recebi minha ficha de três meses de sobriedade das mãos de minha esposa. Quando chamado para a entrega, o coordenador deu uma aula de estupidez quando alcançou a ficha para ela dizendo: “não é muito comum um familiar entregar a ficha, mas… tudo bem”. Poxa, já vi familiares entregarem fichas em diversos grupos. Além disso, não tenho padrinho presente e minha esposa pode ser considerada uma companheira, visto que é Al-Anon. O pior é que ela está passando justamente por uma fase em que se sente excluída dos grupos sociais (trabalho, família…) que frequenta. Foi uma tremenda indelicadeza do coordenador brucutu.

Senhor, continue concedendo-me a serenidade necessária.

Anúncios