Alarmados pelo que consideraram um elevado número de mortos nas estradas em 1989 (um total de 776), em dezembro daquele ano a Comissão de Acidentes no Transportes (TAC, da sigla em inglês) de Victoria, o segundo Estado mais populoso da Austrália, com 5,5 milhões de habitantes e cuja capital é Melbourne, inaugurou uma revolucionária campanha televisiva com objetivo de inibir o uso de álcool e outras drogas entre motoristas.

20 anos de vídeos extremamente fortes

Ao longo das duas décadas seguintes, 40 peças seriam levadas ao ar, abordando inúmeras situações que propiciam tragédias ocorridas nas estradas e nas cidades por culpa de pessoas que dirigem entorpecidas: fulano que diz que só tomará uma cervejinha, sicrano sem condições de dirigir que se recusa a passar o volante para um amigo, o constrangimento de ser pego no bafômetro, a agonia das famílias nos hospitais.

A média de um anúncio a cada seis meses foi um dos carros-chefes do trabalho da TAC, bem como a objetividade e até agressividade dos slogans (o mais conhecido é “se você bebe e depois dirige, é um maldito idiota”).

Mas o que marcou para sempre a vida dos telespectadores australianos foi a visceralidade, o realismo e a profunda emotividade – tanto no conteúdo quanto na forma – dos filmes.

Em alguns, os acidentes eram reproduzidos com uma crueza e perfeição técnica que os tornavam quase insuportáveis de se assistir, o que era justamente o objetivo de seus criadores. Já outros exploravam o desconsolo de familiares de vítimas reais de acidentes fatais (como a batizada “Pictures of You”, das fotos acima do texto).

“Um longo caminho a percorrer”

O resultado? Bom, em dezembro de 2008 foram divulgados novos números: 303 mortos em acidentes no ano. Ou seja, 60% de redução no índice. Uma queda para encher de orgulho os australianos e servir de exemplo ao mundo. A descendente continuaria em 2009 (290) e 2010 (288).

E para quem pensou que o órgão responsável pela campanha se deu por satisfeito, o maior tapa na cara publicitário ainda estaria por vir: para marcar os 20 anos do projeto, a TAC lançou em 2009 um vídeo de mais de 5 minutos, com trilha sonora de “Everybody Hurts”,  belíssima balada do R.E.M., que resume trechos de todas as campanhas anteriores (vídeo acima).

Um verdadeiro soco no estômago impulsionado pela frase “ainda há um longo caminho a percorrer”. Se assistir a este único filme já causa tanto impacto, imaginem passar duas décadas acompanhando os outros.


Fonte: Coluna de Ricardo Setti em site Revista Veja (24/10/2011, 18:00)

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