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Em Alcoólicos Anônimos, quando estamos em abstinência, ou ainda melhor, quando estamos experimentando a sobriedade, nos identificamos como “alcoólicos em recuperação”. Em reuniões, frequentemente dizemos “em recuperação há X tempo”, em vez de “em sobriedade há X tempo”. Há poucas 24 horas, eu acreditava que o termo recuperação se esvaía em sentido quando voltássemos a ter uma serenidade tamanha que nos libertasse da obsessão do beber destrutivo. Que quando perdêssemos a vontade de beber e começássemos a trilhar um caminho de sobriedade, a designação “em recuperação” seria mera questão de praxe. Não é.

Chego a ficar envergonhado de não ter percebido isso antes, mas passados os primeiros 90 dias do meu despertar espiritual, depois dessa primeira etapa em que manter-me abstêmio e sem vontade de beber era a meta principal, passo agora a realmente recuperar-me como ser humano, como pai, como marido, como filho, como amigo, como uma pessoa produtiva na sociedade, etc. Isso envolve centenas de tarefas que antes, na ativa, eram inimagináveis. Algumas ainda são. Mas tenho que confiar nas 12 Promessas de A.A.. Principalmente na 12ª: “Perceberemos, de repente, que Deus está fazendo por nós o que não conseguíamos fazer sozinhos”.

Janeiro passou e consegui encontrar tempo para estudar bastante o 1º Passo. O final do mês coincidiu com minha troca de ficha de três meses se sobriedade. Tanto o estudo do passo quanto minha dedicação ao programa de A.A. e procura de ajuda com consultores e companheiros me fizeram chegar a um bom momento a que sou grato: estou realmente firme no propósito de não beber e uma recaída, embora sempre possível, é inimaginável para mim. Depois de tantas perdas, de tantos anos de horror e de tantas vezes que ouvi as lições nas minhas três internações e em grupos de A.A., posso dizer que consegui derrubar meu orgulho e ter a humildade suficiente para admitir minha derrota completa perante o álcool, meu fundo de poço e o fato de que minha vida é ingovernável se depender somente de mim.

Pois bem, parto agora, rumo aos seis meses, que se completarão em 28 de abril, um dia depois do meu aniversário. Nesse tempo, além de estudar e procurar fazer os passos 2, 3 e 4, conforme os meses, tenho como meta recuperar-me como homem, como pai de família, como cidadão. Preciso, de uma vez por todas, aprender a lidar com minhas finanças e ter serenidade para tratar desse assunto. Nesse último final de semana, em reunião com companheiros com anos de sobriedade, percebi que vários deles tiveram de atacar esse problema, o de saber lidar com dinheiro, de frente em um momento de suas recuperações. A doença do alcoolismo destrói implacavelmente a capacidade de o doente tratar de questões financeiras. Tanto é que existe uma Promessa de A.A. que fala especificamente disso, a 10ª: “O medo das pessoas e da insegurança econômica nos abandonará”.

Fato é que finalmente descobri o real significado da palavra “recuperação” em A.A. Tanto há para recuperar. Tanto há para reparar… Mas só posso seguir um dos lemas: “vá, mas vá com calma”. Ontem, olhando para o futuro, para a longa caminhada dessa tal recuperação, cheguei a sentir os ombros caírem por um instante. Mas novamente busquei outro lema: “só por hoje”. Um dia de cada vez. Não há por que ter pressa. A vida não está tão boa quanto eu acreditava estar. O simples fato de estar sem beber e, acredito, em sobriedade não garante muita coisa. Meus familiares e amigos estão felizes por mim. Mas não quero que estejam felizes por eu estar em pé, em vez de caído. Quero que eles fiquem felizes de me ver caminhando, igualmente feliz, a passos pequenos, mas firmes, confiante no amanhã cada vez mais iluminado. Felizes por eu estar realmente em recuperação.

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