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Há muito tempo penso em escrever algo sobre o anonimato em Alcoólicos Anônimos. Quando comecei este blog, há pouco menos de três meses, já percebi que, cedo ou tarde essa pauta iria saltar-me aos olhos e eu não poderia fugir dela. Pois bem. Decidi não me preparar para escrever sobre o tema. Ler artigos, comentar com companheiros mais experientes, observar atentamente a literatura de A.A., entre outras coisas até foi a minha intenção inicial para, finalmente, escrever sobre a questão. Mas quem sou eu para confeccionar um artigo fim, algo tão substancial? Acredito que minha resistência à ideia inicial mostra, graças a Deus, que meu ego realmente está bem colocado em seu lugar. Então, é exercendo a humildade que escrevo assim, de supetão e sem interesse em formular grande proposição sobre o tema.

Depois dessa longa e provavelmente inútil introdução, serei bem breve. O que acredito ser importante saber sobre o anonimato é que ele serve para proteger a irmandade de Alcoólicos Anônimos, e não o membro dela. Isto posto, explico:

Somos todos portadores de uma doença mental, física e espiritual. Falo por mim, mas acredito que todos nós que admitimos o 1º Passo de A.A. aceitamos que temos defeitos de caráter e também que não somos imunes à recaída. Sendo assim, um membro que abre seu anonimato em relação à irmandade e não se comporta bem na sociedade dá argumentos para que esta mesma sociedade rotule os demais membros de A.A. ou ainda diga: “veja, está frequentando A.A. e continua com tal defeito. Então, que valores existem em A.A.?”. E ainda há a situação da recaída: “veja, está frequentando A.A. e voltou a beber. Então A.A. não funciona”.

Bem, é essa a principal razão que me leva a manter meu anonimato e, quando isso não é possível, ou aconteça de alguém saber que frequento A.A., apressar-me em dizer que qualquer desvio de caráter que eu cometer ou se eu voltar a beber, é porque EU não fui suficientemente honesto, humilde, não tive boa vontade ou mente aberta para compreender e vivenciar o programa sugerido pela irmandade de Alcoólicos Anônimos. Sendo assim, com essas ressalvas, não me preocupo em abrir meu anonimato quando necessário mas, de forma alguma quebro o anonimato de outro companheiro.

Essa visão que acabei de dar sobre o tema não é aquela que está no livro “Alcoólicos Anônimos”, a primeira publicação de A.A., em 1939. Lá o anonimato é colocado como ferramenta para proteger o recém-chegado, o alcoólico que tem medo da reprovação da sociedade. Mas mais tarde, na década de 1950, o próprio Bill W., cofundador da irmandade e coautor da obra, em artigos para a revista Grapevine reconhece que aquela era uma visão inicial, necessária à época, e que os tempos mudaram e haviam de mudar sempre.

A não abertura do anonimato também era preconizada pelo médico Harry Tiebout, grande amigo da irmandade desde os seus anos iniciais e primeiro psiquiatra a reconhecer o trabalho de A.A. e a usar os seus princípios em sua prática profissional. Segundo ele “o anonimato, cuidadosamente preservado, fornece dois ingredientes essenciais (…) primeiro, a preservação de um ego reduzido; segundo, a presença contínua de humildade ou simplicidade”.

Além disso, não tenho como deixar de lembrar da 12ª Tradição de A.A.: “O anonimato é o alicerce espiritual das nossas Tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades”. Ainda que qualquer grupo ou membro de A.A. tenha liberdade para interpretar tanto os 12 Passos, quanto as 12 Tradições da forma que melhor o aprouver, fica clara a importância do anonimato, ainda que cada membro sempre fale por si mesmo.

Eu preservo meu anonimato por todas essas razões acima. Sinto um certo desassossego quando decido abri-lo, mas algumas vezes é preciso, principalmente quando estamos praticando o 12º Passo: “Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a esses Passos, procuramos transmitir essa mensagem aos alcoólicos e praticar esses princípios em todas as nossas atividades”.

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