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“Vá com calma”. No começo, pelo menos nos meus três primeiros meses de sobriedade, esse conselho repetido em reuniões de Alcoólicos Anônimos foi absorvido com tranquilidade. Afinal, havia tanto para meditar, para ler, para ouvir, para partilhar, para escrever… que por mais calma que eu tivesse, as coisas pareciam andar em um ritmo moderado. Demorou para passar os três primeiros meses, mas tive muito o que fazer nesse tempo todo além de me manter sóbrio. Agora, com mais tranquilidade e menos tempo (sim, nem sei como tinha tempo de beber e curar ressacas), tenho de enfrentar a segunda parte do conselho: “Vá com calma, é aos poucos que a vida vai dando certo”.

Um companheiro de A.A. com 30 anos de sobriedade costuma repetir o que ele chama de três fases da recuperação: 1. Parar de beber; 2. Perder a vontade de beber; e 3. Encontrar uma nova maneira de viver. Pois bem, depois do meu despertar espiritual, antecedido por alguns anos de conhecimento de A.A. e de três internações, finalmente consegui parar e perder a vontade de beber. E esses três meses de muita meditação, partilha com companheiros em reuniões e dedicação a escrever diariamente no blog, foram fundamentais para sacramentar que realmente não tenho mais vontade de beber. A essa dádiva eu sou grato todos os dias ao acordar, mantenho minhas ações disciplinadas durante o dia e agradeço ao me deitar à noite. Mas encontrar uma nova maneira de viver é que está me deixando inquieto nas últimas duas semanas.

Sei que é aos poucos que a vida vai dando certo, mas não precisava ser tão devagar assim. Estou em busca de uma melhora financeira. Na verdade, preciso sair de um buraco financeiro e aprender a lidar com dinheiro, coisa que a maioria dos alcoólicos não sabe. A tarefa está difícil, mas ainda assim a estava enfrentando. Foi então que me envolvi em um acidente de carro e, mesmo tendo seguro, vou ter de desembolsar um valor que não possuo para cobrir a franquia. Só Deus sabe o quanto estou pedindo serenidade para buscar uma saída. Antigamente, eu bebia e o problema parecia ficar menor. Agora, a bebida não faz parte da minha vida e eu não sei o que fazer para resolver a situação. Pelo que estou percebendo, vai ser entre conselhos daqui e dali, entre tentativas envolvendo erros e acertos que vou encontrar o caminho. Mas tenho fé e tudo vai dar certo.

Outra situação que me incomoda nesses pouco mais de 100 dias sóbrios é a questão familiar. Minha esposa, embora tenha se separado de mim em um primeiro momento durante essa última recaída e internação, voltou a acreditar na minha recuperação. Na verdade, acho que pela primeira vez ela tem dados concretos para realmente acreditar na minha recuperação. Agora tento desenvolver o que chamam de “lar” em minha casa. Tenho uma filha de um ano e seis meses, sou pai de primeira viagem. E não sei bem o que fazer, embora tenha lido tudo o que posso a respeito e sou amoroso o suficiente para que a pequena seja muito apegada a mim. Há também a questão sexual, afetiva, amorosa com minha esposa. Eu realmente não sei o que fazer, embora as coisas pareçam estar se encaixando aos poucos, devagar, como diz o conselho de A.A. Mas precisava ser tão devagar assim? Na verdade, ocorre que não sei viver. Na verdade, não devo encontrar uma nova maneira de viver, devo descobrir como viver.

Na Oração da Serenidade peço sabedoria para reconhecer as coisas que posso modificar. Mas como modificar? Eu, sinceramente, não sei. A única coisa que me resta é acreditar no modo de vida de A.A. Lá tem um programa de 12 passos. Lá nos ensinam a acreditar em 12 promessas. Lá nos dizem que o segredo está na próxima reunião e… que é aos poucos que a vida vai dando certo.

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