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Introdução

Já é bem conhecida a influência dos pais no comportamento de seus filhos em relação ao consumo de álcool. Em primeiro lugar, os estudos mostram que os jovens copiam seus pais em relação ao comportamento de beber (principalmente, o comportamento do pai). Outro estudo demonstrou que a exposição ao consumo de álcool pelos pais interfere no início do uso de bebida e pode levar a um consumo elevado em adolescentes. Em segundo lugar, a maneira com que os pais monitoram seus filhos em relação ao consumo também parece interferir no padrão de consumo destes jovens. Por exemplo, estudos verificaram que filhos de pais controladores fazem menos consumo abusivo de álcool. Além disto, a colocação de regras e disciplina parecem reduzir o risco de embriagues em jovens. Estes estudos, no entanto, não explicam como os pais lidam com o comportamento de seus filhos em relação ao beber, também conhecido como socialização do álcool (ex.: regras sobre o uso do álcool, desaprovação expressa dos pais ou diálogo sobre o uso do álcool).

Poucos estudos exploraram a “socialização do álcool”. Wood e colaboradores demonstraram que adolescentes bebem menos quando seus pais desaprovaram, em algum momento, seu comportamento de beber. A permissividade, por outro lado, encoraja os filhos a consumirem álcool abusivamente. Outro estudo mostrou que os filhos que não reconhecem a autoridade de seus pais consomem aproximadamente quatro vezes mais que os adolescentes que levam em consideração a autoridade de seus pais. Uma outra estratégia eficaz é os pais falarem sobre álcool com seus filhos. De acordo com outro estudo os pais falam mais de álcool com seus filhos quando pelo menos um bebe.

Socialização em relação ao álcool

Embora o papel dos pais na socialização dos filhos em relação ao uso do álcool tenha recebido especial atenção nas últimas décadas, muitos pontos ainda permanecessem desconhecidos. Primeiro, a maior parte dos estudos foca mais nas diferenças entre as famílias do que as diferenças existentes em cada uma das famílias avaliadas. Em segundo lugar, membros da mesma família provavelmente vivenciam suas experiências ligadas ao álcool diferentemente. É importante, portanto, avaliarmos a impressão que cada membro da família tem em relação às suas experiências. Em terceiro lugar, alguns estudos utilizam um ou dois itens para medir práticas de socialização relacionadas ao álcool. A fim de melhorar a confiabilidade desta avaliação, seria importante incluir instrumentos mais completos. Por fim, muitos estudos investigaram a influência do beber dos pais no ato de beber de seus filhos. Como o comportamento dos pais está relacionado à socialização do álcool, é preferível verificar outros efeitos desse comportamento.

Neste artigo, os pesquisadores verificaram a socialização do álcool e o consumo por adolescentes por meio da obtenção de dados fornecidos pelo pai, mãe e de dois adolescentes da família. Tal estratégia permitiu comparar a percepção de diferentes membros da mesma família em relação ao álcool e explorar se os pais abordam o tema de maneira diferente entre os filhos.

Participantes

Os dados deste estudo foram coletados a partir da pesquisa “Family and Health” que avaliou diferentes processos de socialização que levaram em consideração múltiplos comportamentos dos jovens. Uma amostra significativa de famílias holandesas foi convidada por correio a participar do estudo. Os endereços foram obtidos através dos registros de 22 municípios que incluía 5,4 mil famílias. Destas, 765 preencheram os pré-requisitos para participar da pesquisa e, no final, para que houvesse um equilíbrio maior, 428 participaram deste estudo longitudinalmente. Cada membro da família tinha de responder um questionário por aproximadamente duas horas.

Consumo de álcool

Cada um dos quatro membros de cada família respondeu sobre frequência de uso de álcool nas quatro semanas que antecederam a entrevista. A intensidade do consumo foi medida por meio da quantidade ingerida na última semana.

Medidas de socialização voltadas para o uso do álcool

Os adolescentes tinham de preencher uma escala sobre a comunicação e reação dos pais em relação ao uso do álcool. A comunicação sobre o álcool foi medida por meio de seis domínios específicos:

  1. Consequências negativas do uso;
  2. Como resistir à pressão dos amigos em relação a fazer uso do álcool;
  3. Incentivo a procurar amigos que não usam álcool;
  4. Falar para o adolescente não usar;
  5. Regras para o uso do álcool; e
  6. Disciplina.

Os membros das famílias também eram questionados sobre quantas vezes cada pai falou nos últimos 12 meses sobre o álcool com seus filhos. Os itens tiveram uma consistência interna muito boa (coerência entre a resposta dos pais e filho).

Reações a episódios de embriagues dos filhos

Os participantes eram questionados quanto à reação dos pais em relação ao filho chegar em casa bêbado. Para tanto, uma escala de 1 a 8 foi aplicada, onde o “1” era “não se aplica” até o “8” “completamente aplicável”. Uma análise fatorial foi aplicada e dois fatores distintos foram identificados: reações negativas (ex.: eu fico muito brabo) e reações negligentes (ex.: eu não me importo).

Regras em relação ao uso do álcool

Foi desenvolvida uma escala de 10 itens para medir o quanto os pais permitem que seus filhos consumam bebidas alcoólicas em várias situações, tais como “beber em casa na ausência dos pais”, ou “chegar em casa embriagado”. A consistência interna para estas questões foi alta. Engels & Willemsen (2004) desenvolveram uma escala para avaliar a confiança que um membro da família tem na ação dos pais em prevenir que seus filhos fumem. Esta escala foi adaptada para o álcool e alguns de seus itens são:

  1. Você acha que seus pais são capazes de evitar que você se embriague?
  2. Você aceitaria conselhos dos seus pais para não beber muito?

Acesse 2ª e última parte deste artigo


Fonte: The role of alcohol-specific socialization in adolescents’ drinking behaviour. Haske Van Der Vorst, Rutger C. M. E. Engels, Wim Meeus, Maja Dekovi, Jan Van Leeuwe. O conteúdo é de domínio público. O texto pode ser reproduzidos desde que as informações não sejam alteradas e a fonte seja citada adequadamente. Tradução e divulgação: Núcleo Einstein de Álcool e Drogas (Nead) do Hospital Israelita Albert Einstein.

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