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Por Margaret Lee Runbeck

Se eu morasse em frente a sua casa, e observasse o quanto você luta corajosamente, mas sem esperanças contra sua doença, e se falasse com você às vezes, quando você não conseguisse me evitar, eu não ousaria lhe dizer pessoalmente o que agora vou lhe dizer por escrito. Você não deixaria dizê-lo, porque teria medo de mim. Julgaria que também eu faço parte da conspiração mundial contra você; ofender-se-ia por eu ter suspeitado de sua secreta agonia.

Se nós nos encontrássemos, frente a frente, eu não acharia meio nenhum para lhe dizer o quanto gosto de você. Também não conseguiria lhe dizer que não encontro nada de desprezível ou ridículo em você. Não lhe daria nenhuma lição de moral, pois você não permitiria que lhe falasse a respeito de sua doença fatal. Nós duas faríamos de conta que ela não existe.

Assim sendo, preciso lhe escrever uma carta e pô-la num lugar seguro, onde você vai encontrá-la e possa escondê-la de sua família para depois lê-la com calma.

Nós duas começamos por ter alguma coisa em comum. Ambas sabemos que você está apavorada com o seu problema de bebida.

Você poderá ter qualquer idade; poderá ser uma universitária, uma jovem mãe, uma profissional admirada, a esposa do homem mais importante de sua comunidade ou uma avó que parece equilibrada. Você pode ser uma mulher extrovertida, animadora de qualquer festa, ou uma pessoa assustada, cheia de complexos de inferioridade e que, antes de tentar qualquer coisa, procura primeiro a coragem dentro de uma garrafa, não importa o quanto possa parecer fácil a outras pessoas o que terá que fazer.

Talvez você já tenha estado bebendo há meses ou mesmo anos, ficaria horrorizada e o negaria veementemente, se alguém a chamasse de alcoólica, mas secretamente está se perguntando se é ou não é.

Posso responder-lhe já, pois, se você não pode controlar o seu modo de beber, se agora bebe mais do que admitiria, é provável que de fato seja uma alcoólica. Quando pronuncio esta palavra, me refiro a uma pessoa que sofre de uma doença. Uma enfermidade que progressivamente avança, diminuindo os horizontes de seu mundo, até que nada mais lhe reste de real, salvo o álcool.

Por você ser mulher, seus hábitos de beber são, com toda certeza, muito discretos, pois faz de tudo para escondê-los de todos, até de si mesma. E talvez tenha conseguido. Talvez ainda ninguém saiba que você beba, porque não ousa tomar nada em público, sabendo que este primeiro gole é o início de uma longa jornada para baixo.

Talvez você seja “uma alcoólica do quarto de dormir”, e neste momento talvez eu a tenha seguido em pensamento para dentro de seu próprio quarto, onde pretende, com ares inocentes, pegar a garrafa escondida entre sua lingerie, ou numa caixa de chapéu lá naquela prateleira de cima. Pode até ser que a sua família ainda não tenha percebido nada, não suspeitou ainda de suas frequentes “dores de cabeça”.

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