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É bem como está no título: decisão de não querer morrer. Não é “decisão pela vida” ou algum outro desdobramento sinônimo qualquer. Quando tive meu despertar espiritual, graças à minha boa vontade e o conhecimento da obra divina de Alcoólicos Anônimos, eu não decidi viver, mas percebi que não queria mais morrer. E pelo que consigo perceber em meus companheiros de doença, é que realmente existe um sentimento, consciente ou inconsciente, de autodestruição em nós alcoólicos, e acredito que também em dependentes químicos de outras drogas.

Naquela manhã de despertar espiritual, eu não escolhi pela vida, muito menos por que tipo de vida eu queria ter ou teria condições de ter. Não percebi nem tinha realmente noção de que era capaz de continuar vivendo, muito menos de que poderia ter uma vida boa, saudável, honesta, tranquila e abençoada. Naquela manhã, nada disso era necessário. Naquela manhã, o viver não era uma opção. O que viria pela frente nem chegava a ser uma incógnita, pois eu não tinha condições física, mental ou espiritual para especular algo em relação ao futuro. Havia apenas chegado a hora de parar de morrer. O poço estava escuro demais. Acho que até conseguiria, mas eu resolutamente não quis mais cavar.

Espero que compreendam que de uma decisão dessas não há volta. Ela é única. Por isso, entendo que para quem teve realmente um despertar espiritual, retorno não há. Passei a existir. Viver seria outro processo. E eu não tinha, naquela manhã, a menor ideia do que ocorreria com minha existência neste mundo. Tudo o que me restava era a fé. O mar de sentimentos dentro de mim era só um imenso repuxo. Nada vinha, tudo ia. Até que acabou.

Ficaram na praia os despojos da ressaca desse oceano em fúria.

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