Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , ,

O apadrinhamento em Alcoólicos Anônimos deve ser uma coisa fantástica. Digo deve ser, pois padrinho, de fato, na concepção descrita na literatura de A.A., nunca tive. Lembro das cinco pessoas que me entregaram a ficha amarela de ingresso e reingressos após recaídas, mas nenhum deles me apadrinhou realmente. Aquela base forte, aquele conselheiro igualmente alcoólico sempre presente e dando orientações importantes, nunca conheci. Não foi culpa deles e nem é sobre isso que quero falar hoje. Tenho uma base forte junto a alguns companheiros e a dois consultores da clínica onde estive internado e aos quais recorro quando tenho questões complicadas para entender no programa de A.A. Mas também não é sobre isso que quero falar hoje. Hoje preciso escrever sobre uma pessoa que é talvez mais do que um padrinho. É o irmão que eu não tive.

Já faz muito tempo que ensaiei escrever sobre isso, esperando o dia em que palavras inspiradas me viessem, mas decidi não esperar mais. Meu compadre e cunhado completou 10 meses de abstinência de álcool. Ele não é alcoólico e ainda trabalha na maior fabricante de cerveja do mundo. No dia 4 de maio de 2014, durante minha penúltima internação, ele foi me visitar e disse que seria meu parceiro para um tal de programa chamado “desdobramento de metas”. Na empresa, ele tinha parceiros para cumprir metas. E disse que seria meu parceiro na meta de não beber, de 24 em 24 horas. Um deveria apoiar o outro, ser responsável pela meta junto com o outro para o projeto não afundar.

Pois esse pássaro teve de voar com uma asa só por um dia: recaí e precisei ser internado novamente. Ele seguiu firme. Foi me visitar sempre que pode, algumas vezes sacrificando o pouco tempo que tinha para ficar com as filhas e esposa. Nunca disse uma palavra de repreensão. Sempre me deu apoio. Sempre esteve ali com aquele olhar amoroso e firme. E com firmeza e amor me disse, ao pé da orelha, durante um abraço forte, mais ou menos assim:

_ Não adianta recair, eu não vou desistir de ti.

Eu certamente não vou saber encontrar palavras para descrever o que sinto por esse homem. Só sei que ele ajuda a salvar minha vida a cada dia. Eu certamente não vou conseguir compreender o tamanho da compaixão de um ser humano por outro. Só estou certo de que sou inteiramente grato por ter essa pessoa ao meu lado.

Hoje, lá na empresa, ele já foi promovido, já recebeu prêmio até. Hoje conversei com ele sobre nosso “pacto” e ele mandou a foto do calendário antigo dele, com a data marcada. Hoje, aos meus 128 dias sóbrio, preciso mesmo parabenizar meu cunhado, compadre e irmão, à moda de A.A.: muito obrigado, parceiro, pelos teus 10 meses!

Anúncios