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Acho que não fui o único nem serei o último alcoólico em recuperação que sentiu, pelo menos um pouquinho, inveja daquele companheiro que partilha que perdeu família, casa, etc… Quem inicia uma recuperação sozinho, do zero, parece que tem a vida mais fácil. Aluga um quartinho ou vai morar em uma pensão, gasta pouco e só se preocupa com cumprir o horário do trabalho simples que conseguiu, com reuniões de Alcoólicos Anônimos e a literatura da irmandade. Ledo engano de quem acha que é fácil. Mas em algum momento, para aqueles que precisam reconstruir uma vida ao lado da família, parece uma dádiva. Parece que aquelas caras tristes por estar longe da família representam uma máscara de quem está aliviado de compromissos. Muitos podem negar, mas é isso o que passa pela cabeça de quem começa uma recuperação abarrotado de contas, tarefas do lar, pressão da esposa por intimidade, filhos querendo atenção…

Graças ao Poder Superior, não sinto mais essa inveja estúpida. Na primeira fase deste meu primeiro ano de recuperação, os três primeiros meses, esse sentimento me incomodou algumas vezes, principalmente quando um companheiro levantava a questão, sentindo aquele ciúme besta. Isso que naqueles 90 dias o meu foco era manter-me sóbrio e sem vontade de beber. Mantive-me com certa facilidade, confesso, devido ao meu despertar espiritual. Mas aqueles três primeiros meses passaram devagar demais. Aquela ficha azul não chegava nunca.

A admiração obsessiva pela condição de miséria familiar daqueles companheiros deveria estar me incomodando agora, quando na fase entre os três e os seis primeiros meses. Hoje completo 135 dias sóbrio. É meio-dia e estou exatamente bem no meio da caminhada entre a ficha azul e a rosa, que se recebe aos seis meses de sobriedade em A.A. Nesse período, minha tarefa principal, além de manter minha família e dar atenção primordial à minha filha de um ano e sete meses, é organizar questões materiais e assumir de vez responsabilidades inerentes a um homem adulto de quase 40 anos.

Nesses últimos 45 dias dessa segunda fase, estou envolto com organização financeira, montagem do apartamento novo que aluguei, mudança da minha esposa que agora virá morar comigo, minha adaptação no emprego novo, da minha filha na escola nova… É um tal de arruma isso, conserta aquilo, instala aquilo outro, corre atrás de documentos, paga pendências, organiza contas nos bancos, contrata aquele, dispensa outro, é psicólogo, é psiquiatra, é oftalmologista, é plano de saúde, é imposto de renda, estuda para mestrado, escreve para o blog… uff… e lá vou eu, depois de passar a noite quase sem dormir porque a bebê estava tossindo e com febre.

Mas, graças a Deus e minha boa vontade, levanto sereno, dou banho na pequena, arrumo o cabelinho, dou café da manhã, levo para a escolinha e corro para o trabalho.

O fim de semana vem aí. E vem recheado de tarefas. E lá vou eu, grato por tudo, sem a inveja estúpida do companheiro desventurado.