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Faz pelo menos três semanas que não escrevo. Isso não significa que minha recuperação está comprometida. Ao contrário, tenho feito muito por ela nessas últimas tantas 24 horas. Graças ao Poder Superior, não tenho sentido angústia alguma no enfrentamento de uma das minhas grandes questões pessoais: o gerenciamento de minha vida material. Daqui 14 dias, completo seis meses de sobriedade e parto para outra etapa. Neste meu primeiro ano de recuperação, o período dos 90 aos 180 dias é dedicado a colocar em dia minhas finanças (pelo menos organizá-las) e, de uma vez por todas, deixar de ter medo de fazer o que deve ser feito, o que toda a pessoa normal faz em seu cotidiano.

Cresci observando medo, angústia, desespero até, de fazer coisas relativamente simples, coisas que deveriam ser feitas com natural tranquilidade. Depois de adulto, declaração de imposto de renda, pagamento de IPVA, e outras tarefas que se faz uma vez por ano já eram o suficiente para tirar meu sossego por meses! Não vou entrar no rol de outras labutas, mas dá para se imaginar o pavor que sentia diariamente. Meu modo de “resolver” esses “problemas” era tornando-os mais amigáveis encharcando-os com álcool.

Ainda na minha primeira internação, há cinco anos, um consultor dizia: “larga o joystick!”. É até engraçado, mas apenas ontem, depois de ter entendido que o controle de minha vida está nas mãos de um Poder Superior, graças ao despertar espiritual, é que lembrei daquele conselho. Entendi o que o hoje amigo e companheiro José Pedro queria dizer. Ele condensava naquelas três palavras os três primeiros passos de Alcoólicos Anônimos. Quando admitimos que não temos o controle de nossas vidas, entendemos que um Poder Superior quer nos colocar de volta no caminho da sanidade e decidimos entregar nossa vida e vontade em Suas mãos, é que realmente largamos o joystick.

Dá ainda para resumir tudo em uma só palavra, bem curtinha em tamanho, mas infinita em significado: Fé! Como é que pode eu ter lido tantas vezes a afirmação “Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível” (Mt 17.20) e não a ter compreendido do fundo da alma?

Mesmo que você não seja alcoólico, que não tenha feito o Primeiro Passo de A.A. admitindo a impotência perante o álcool e que perdeu o controle sobre sua vida, acredito que seja pertinente fazer o Terceiro Passo: “Decidimos entregar nossa vida e nossa vontade aos cuidados de Deus, na forma que O concebíamos”. Quando precisamos fazer uma cirurgia, geralmente procuramos um cirurgião, quando precisamos fazer um tratamento de canal, buscamos um bom dentista, e assim por diante. Por que, então, não procuramos o melhor administrador para nossas vidas? Aquele mesmo que a criou e nos conhece mais do que nós mesmos?

Para encerrar, tem uma outra frase sobre fé de que gosto muito: “Fé é assim: primeiro você coloca o pé, depois, Deus coloca o chão”. Porém, sempre me neguei a dar esse salto no escuro. Somente depois de perceber que não me era facultado salto algum, pois já estava no escuro e no fundo de um poço foi que eu entendi a minha única opção em direção à vida. O meu salto foi para cima, em direção a uma Luz tão forte que, da mesma forma que o escuro, não me permite olhar além. Foi então que as coisas começaram a dar certo, somente quando permiti largar o joystick sem função que eu tinha em minhas mãos.

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