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Alcoolismo é uma doença lenta, progressiva, de consequências fatais e… não tem cura. Isso todo mundo sabe (ou deveria). O que muitos de nós, alcoólicos em recuperação, não conseguimos entender é a sensação de estarmos curados de que somos tomados em algum momento da caminhada. Geralmente esse estado de espírito recorrente é alcançado ao se seguir metódica e fielmente o programa de Alcoólicos Anônimos. Motivo de grande parte das recaídas, essa sensação de liberdade é tão intensa que é fácil encontrar em salas de A.A. companheiros retornando com relatos de que, em algum momento da sobriedade, suas mentes enfermas os fizeram crer que não eram doentes, que, afinal, essa questão de alcoolismo teria sido apenas uma fase ruim em suas vidas.

No meu caso, o despertar espiritual proporcionou-me uma sensação semelhante de forma instantânea. Desde então, e de um momento para outro, não tive mais vontade de beber, a compulsão parecia ter-se ido. Mas, em contato constante com A.A., sempre tive o cuidado de manter a mente aberta para saber que, em algum lugar escondido de meu inconsciente, aquela obsessão pelo beber destrutivo sempre estará lá. Ela fica ali, escondida, a espera de um deslize, de um momento em que posso fechar meus olhos para os defeitos de caráter que tenho de trabalhar.

O que chamo de ponto de equilíbrio chegou após receber a ficha de três meses de abstinência, no meu caso, acredito que de sobriedade também. Foi quando parei de tomar medicação e a sensação de paz e de controle sobreveio com ainda mais firmeza. Porém, a menos de uma semana dos meus seis meses, percebo ao fazer diariamente o 11º Passo (Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade), que o caminho ainda é longo e que ainda cometo deslizes de comportamento que, mesmo mínimos, podem ser as sementes de um desvio desastroso. Nesses momentos é que fortaleço minha boa vontade e, algumas vezes, uso também de força de vontade para clarear o caminho e manter o trem nos trilhos.

Tem uma frase de que gosto muito que diz: “nossas responsabilidades são do tamanho de nossos privilégios”. Acredito que é justamente nisso que devemos pensar quando vivemos no ponto de equilíbrio. Certamente que viveremos momentos plenos, haverá tempo em que lamentaremos os momentos mágicos perdidos, mas penso que viver no ponto de equilíbrio é bem mais assustador. Tudo normal, vida normal. Contas para pagar, trabalho por fazer, estudo e meditação, filhos para dar e receber carinho, descansar, se divertir, ser feliz. Isso tudo (e mais um pouco) são privilégios que devemos manter sendo responsáveis com nossa recuperação.

E somos responsáveis com nossa recuperação quando refizemos diariamente o Primeiro Passo, não só admitindo nossa impotência perante o álcool, mas também que nossas vidas são ingovernáveis. Então, por consequência nos obrigamos a dar o Segundo e o Terceiro, vindo a acreditar em um Poder Superior e entregando nossa vida e nossa vontade em suas mãos. Somos responsáveis quando nos colocamos dispostos, diariamente, a seguir o programa de Doze Passos de A.A. E então seguimos na dádiva do ponto de equilíbrio. Para encerrar, lembro de uma outra frase, esta de Albert Einstein: “A vida é como andar de bicicleta: para estar em equilíbrio você deve se manter em movimento”.

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