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Na literatura de Alcoólicos Anônimos está escrito que devemos reconhecer que sabemos pouco e ter a confiança de que Deus constantemente nos revelará cada vez mais. Para tanto, precisamos manter nossas mentes abertas e nos perguntar diariamente em nossas meditações sobre o que podemos fazer pelo homem doente. Diz também que as respostas virão se estivermos preparados. Hoje preciso de respostas, e de certa forma, acredito que as estou recebendo, graças à minha boa vontade e um pouco de humildade.

Há pouco tempo, quando eu era julgado injustamente, ficava muito irado. Muitas coisas eu fazia de errado, mas compreender que as pessoas podem te julgar erroneamente justamente por aquilo que eu não tinha culpa era algo inconcebível. Ontem eu celebrava meu aniversário de 40 anos e o consultor da clínica onde fiz tratamento telefonou. Em princípio, achei que fosse para me parabenizar, mas foi para me perguntar se eu havia abandonado uma gata na clínica, a qual eu havia visitado dois dias antes. Na verdade, ele jamais desconfiou de mim. Resolveu ligar para, ouvindo minha negativa, ir em minha defesa, pois o comentário estava ocorrendo em função de um funcionário ter lembrado que postei, dias antes em meu perfil no Facebook sobre o atropelamento e morte de minha gatinha Amy, muito parecida com a que surgiu misteriosamente na clínica. Acreditavam que eu havia me livrado do bicho por lá para que não convivesse mais com minha filha de um ano e nove meses.

Coisa totalmente infundada. Há pelo menos 20 anos milito pela causa animal. Fui vegetariano por 16 anos exclusivamente por compaixão aos bichos. Perdi as contas de quantos cães e gatos minha esposa e eu retiremos das ruas, esterilizamos e doamos para pessoas responsáveis. Por dois anos consecutivos, em 2002 e 2003, o projeto do qual fizemos parte em Santa Maria, Rio Grande do Sul, recebeu em Londres o prêmio de melhor programa de bem-estar animal do mundo, concedido pela Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA, sigla em inglês para World Society for Protection of Animals), a entidade mais respeitada do planeta na área. A própria Amy, foi resgatada prenhe das ruas. Os gatinhos foram doados e ela acabou ficando em nossa família. Isso há sete anos. Mudamos cinco vezes de residência e foi sempre junto. Ela participou de toda a gravidez de minha esposa, dormia junto na cama conosco e no berço com nossa bebê. Na postagem no Facebook, inclusive coloquei um vídeo (clique aqui para ver) da pequena brincando com a gata, enchendo a boca de pelos, e eu rindo, sem qualquer medo de que o bichano iria prejudicar nossa filhinha.

Incrivelmente, não consigo sentir nenhum pouco de raiva, indignação, revolta ou qualquer outro sentimento que seria normal em mim quando não estava em recuperação. Sinto pelo funcionário que, em recuperação há mais de nove anos, parece que ainda não teve iluminação a ponto de aventar um julgamento desses sobre outra pessoa. Na realidade, não sei bem em que tom se deu a “acusação”, mas para chegar ao ponto de meu consultor, que nunca havia me ligado nesses cinco anos de convivência fraterna, ter telefonado para sanar a dúvida, é porque algo de substancial havia nos rumores.

Continuo triste pela perda de nossa gatinha tão querida e amada, ainda mais porque fui eu quem a atropelou. Mas estou muito feliz por não estar sentindo nenhum tipo de revolta com o julgamento infundado. Ao contrário, estou ainda mais certo de que devo voltar à clínica mensalmente para fazer meu voluntariado. Não sei se tenho algo para dar, não pretendo ser exemplo para ninguém (o que disse com todas as letras aos internos durante uma das palestras em que fui solicitado a falar neste final de semana), mas certamente tenho muito a ganhar convivendo com meus companheiros de doença.

O que está escrito no livro “Reflexões Diárias” de A.A. no dia 27 de abril, dia de meu aniversário e no qual se deu toda a situação, reflete muito bem o que devo ter em minha mente no momento: “Sobriedade é uma jornada de descobertas alegres. Cada dia traz nova experiência, percepção, maiores esperanças, fé mais profunda, tolerância aumentada. Devo manter esses atributos, ou não terei nada para transmitir”.

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