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A admissão é talvez a tarefa mais terrível para um alcoólico, mesmo para aquele que está em recuperação. Não é a toa que é a tônica do Primeiro Passo de A.A. Também não deve ser por acaso que é recomendado pela maioria de seus membros que ele seja refeito diariamente, de preferência logo ao abrir os olhos para um novo amanhecer. Nesses muitos anos de alcoolismo ativo, sobriedade, recaídas e “voltas por cima” conheci muita gente com a mesma doença. Em recuperação ou na ativa, quase todos – perdoem o trocadilho – admitem que a admissão é uma árdua e constante missão.

É interessante estar aqui, olhando para o cursor piscando na tela aguardando eu digitar, e pensando: por que estou novamente precisando escrever sobre o primeiro passo? Sou alcoólico, ponto. Minha vida não pode ser governada por mim, mas por um Poder Superior, ponto. E aí? O que falta admitir? Aí lembro dos depoimentos e conversas informais com companheiros e percebo que nossa mente doentia está sempre nos armando ciladas. Ouso afirmar que mesmo depois de dar o Terceiro Passo (“Decidimos entregar nossa vida e nossa vontade nas mãos de um Poder Superior…”), mas isso é tema para outro post…

Pois bem. Resolvi recordar conselhos, conversas, li alguns textos e separei 10 dos pensamentos mais estúpidos que podem envolver uma recaída ou uma não-admissão. Estúpidos, sim, mas reais. E para nós alcoólicos essas miragens parecem ser muito concretas dependendo da ocasião ou de nosso estado de espírito. Muito disso já escrevi no post Doze sintomas que antecedem a recaída, mas aqui decidi escrever sobre as situações de forma “mastigadas”.

Desculpem o texto cheio de reticências, mas vamos lá:

1. Só tomarei duas cervejas

Firmes no propósito de não recair no defeito de caráter da mentira, podemos ir, de peito estufado e tomar só duas cervejas. A questão é que… logo depois… “tá bom, duas cervejas de manhã, à tarde posso tomar mais duas!”. Hehehe. Ou então: “tá bom, agora vou tomar só uma dose de uísque para encerrar!”. E por aí vai… Já perdemos o controle, já perdemos a serenidade, já perdemos a autoestima, já perdemos nosso tempo (por menor que seja) de abstinência, já perdemos.

2. Não vou a um bar, vou ficar em casa

Em primeiro lugar, ficar em casa, mesmo sob vigilância de alguém, nunca garantirá que um alcoólico não vá conseguir beber. Bebemos álcool de cozinha, se preciso for (e isso é muito mais comum do que imaginamos. Tu não és minoria se já fizeste). E se o propósito é ficar em casa, é certo que, mesmo de forma inconsciente, mantemos alguma reserva guardada.

Mas mesmo que tenhas um firme propósito… não dará certo. Tu lês um livro por uns 10 minutos, assistes à tevê por mais 20 e diz “vou dar uma caminhada, exercício faz bem, oxigena o cérebro”. E no trajeto dessa caminhada sempre haverá uma loja de conveniências bem conveniente…

3. Vou comer bastante e não ficarei bêbado

Aí a gente come muito e depois… bebe muito. Então, além de bêbados, estamos estufados. Caso não vomitemos, vamos acordar lá pelas duas da madrugada obrigados pelo nosso organismo a fazê-lo. A boa notícia é que sempre dá para beber um pouco mais antes de voltar para cama. Argh… é horrível, mas é assim mesmo.

4. Beberei socialmente com outras pessoas para me divertir

Bonito, mas trágico. Em poucos dias (ou mesmo no primeiro), tu vais beber um pouco antes para “fazer uma base” e beber moderadamente com os amigos… o que nunca acontece, pois sempre acabará bebendo mais do que todos. E com o agravante de que está se achando normal, ou melhor: bebedor social. Logo, logo, a noção de beber socialmente se tornará beber quando está acordado.

5. Eu parei por um mês certa vez… posso parar quando quiser

Essa nem mesmo os alcoólicos mais “experientes” acreditam… em um primeiro momento. Mas… Talvez consigas ser bem-sucedido por alguns dias ou até meses. O problema é que quando a vela se acende novamente, o pavio continua do mesmo lugar onde parou. E aí a desgraça volta de onde parou.

6. Se algo der errado, vou parar

A gente sempre começa bem. Tudo tem um primeiro momento. Mas é inevitável. Algo vai dar errado. Sempre. Acredita. Sempre. Se não for hoje, será amanhã, quando você acordar, seu alcoólico (para não ofender).

7. Eu não bebo tanto quanto ele

Com quem tu estás te comparando? Nem vou comentar essa.

8. Vou parar depois de um evento onde não vou conseguir permanecer sóbrio

Geralmente é uma ótima ideia para bebermos o máximo que pudermos até tal evento. E continuarmos a beber depois dele. Sempre acharemos uma desculpa para alongarmos nossa experiência para um próximo evento.

9. Talvez yoga e meditação vai me ajudar

Tu vais a uma aula de yoga e concorda com tudo. Acordas algumas manhãs e fecha os olhos. Concentra-te em sua respiração e pensa: humm, é difícil ficar parado porque a minha mente está correndo, mas esta é minha essência”. Então, corre para o próximo bar e… já era!

10. Eu vou ler este livro de autoajuda

Tu certamente leste esse livro antes a um bar. Ou vais ler no bar.

É. Não tem jeito. A mente alcoólica é assim mesmo. Admita. Ou tente.

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