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Zerar o cronômetro da recuperação é talvez a questão mais dolorosa na vida de um alcoólico. Mas acredito que também seja uma das tarefas que exigem mais coragem e determinação. Zerar o cronômetro, para mim significa recomeçar. A recaída é uma desgraça, tudo bem. Nunca tem um motivo claro, geralmente são várias gotas que encheram o copo até transbordar. Mas identificar, avaliar e reconhecer todos esses erros é tarefa para depois. Agora o que importa é continuar a caminhada. O que realmente tem peso é que ainda há esperança, que não desistimos, que acreditamos que podemos viver uma existência digna e feliz, não importa quantas perdas sofremos com o tropeço.

É sempre difícil escrever sobre recaída. Por isso, prefiro focar no recomeço, o que quase invariavelmente passa pelo retorno a uma sala de Alcoólicos Anônimos. Para muitos, esse é um ato de muita humildade, mente aberta e coragem. Mas acredito que há uma atitude bem mais complicada: procurar um companheiro e quase que fazer um Quinto Passo, admitindo a derrota e a natureza exata de nossas falhas. Sim, pedir ajuda olhando nos olhos de outro ser humano é talvez mais difícil do que entrar em uma reunião de A.A. e solicitar outra ficha amarela. Meu Deus, como é preciso ter boa vontade para cometer esse gesto!

De todas as vezes que recaí nesses quase 23 anos de alcoolismo identificado, foi somente no último retorno que consegui tomar essa atitude. E isso foi fundamental. Confiei em um homem que, graças a um Poder Superior, teve a grandeza de honrar, sem pestanejar, a Declaração de Responsabilidade de A.A. (“Eu sou responsável. Quando qualquer um, seja aonde for, estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão de A.A. esteja sempre ali. E por isto, eu sou responsável”). Jamais vou esquecer daquele olhar de quem, mesmo demonstrando muita calma, foi honesto em reconhecer que talvez não soubesse como e se poderia ajudar, mas que estaria sempre ao meu lado, seja onde for, a hora que for e faria de tudo para que eu voltasse à vida.

Foi em um café da bela Rua da República, por onde passa o Paralelo 30° no bairro Cidade Baixa, o mais boêmio de Porto Alegre, que os três principais elementos da Oração da Serenidade se encontraram. A coragem de alguém pedindo ajuda, a sabedoria de quem estava ajudando e a serenidade que se estabeleceu em minha alma e que permanece até agora em minha recuperação. Eu estava novamente dando o Primeiro e ele o Décimo Segundo Passo. Foi nessa conjunção que compreendi que eu não havia voltado à estaca zero, mas apenas recomeçando uma caminhada. Cronômetro zerado, mas isso não importava mais. O que importa são as 24 horas, só por hoje.

_ Muito obrigado, Zeca!
_ O que é isso… eu é que agradeço por poder ser útil.

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