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Confesso que o “alcoólico em paz” de 17 de novembro de 2014, dia do lançamento deste blog, sobrevive a duras penas em alguns momentos do dia em que a ternura do mundo (sim, ela existe) ativa a minha mente aberta e honestidade. Desde 4 de maio deste 2015, dia da recaída, venho caminhando aos tombos nessa trilha em busca da sobriedade que já em poucos companheiros consigo identificar. Todos esses transtornos ficam claros no número de posts escritos por mim nesse período de seis meses: apenas dois (Retroalimentação e Recaída e recomeço: onde a serenidade, a coragem e a sabedoria se encontram).

Mas, de certa forma especial, foram cumpridas as metas estranhas daqueles posts do meu “plano infalível” para controlar o alcoolismo (leia mais em: Larga o joystick!, Vá com calma. É aos poucos que a vida vai dando certo e Descobri o sentido da palavra ‘recuperação’). A vida melhorou muito, encontrei (finalmente) um padrinho, organizei finanças e estabilizei-me no emprego, etc. Mas enfrento fortes tombos, beijei a lona violentamente por algumas vezes, e ainda estou em pé. Nem sabia como isso era possível até semana passada, quando ocorreu uma reunião de pais da escola de nossa filha de dois anos.

Final de ano, filhos avançando em suas formações pessoais, pais emocionados… essas coisas. Foi aí que a pedagoga responsável pela turma propôs um exercício. Nos entregou uma caixa dentro da qual, segundo ela, havia um grande presente para nossos filhos. Ao abrir, encontrei no fundo dois espelhos, lado a lado. Como fui o último da roda a ver o presente, fui o último a falar sobre as impressões. Identifiquei-me bastante com a fala dos outros pais, mas, encafifado, perguntei:

_ São dois espelhos porque não havia um grande para preencher o fundo da caixa, ou havia algo a mais a ser explicitado?

_ Hehe. Não… é que não achamos nenhum que coubesse no fundo e colocamos dois… – disse a professora.

Pois para mim foi fundamental aquela estranha sincronicidade que só um Poder Superior pode colocar em nosso caminho. Comentei que nossa vida familiar foi bastante conturbada no último semestre, mas aqueles dois espelhos me ajudaram muito. Nem fixei meu olhar muito no do lado esquerdo, fiquei emocionado com o do lado direito. O que vi no fundo daquela caixa foram dois homens diferentes. Ao dado esquerdo, um lutador incansável, todo arrebentado, segurando-se às cordas para manter-se em pé. Do outro, o futuro, um homem forte, firme, amante e amado, consciente de que é preciso se manter sóbrio para que sua família floresça cada vez mais… ou melhor, não padeça no horror de um marido e pai alcoólico na ativa.

E é assim que, sempre de olho no retrovisor, espelho mágico do qual nós alcoólicos não podemos nos furtar, estou seguindo em frente. Estamos quase lá. Quase lá. E a vida parece que será sempre assim. Vamos nos mantendo em pé, um dia de cada vez. Mas eu hoje ainda não admito isso. Acho que temos que pensar que já chegamos muito longe. Que a caminhada não volta ao ponto inicial, mas recomeça a cada recaída (não que isso seja argumento para tal). Sinto-me feliz, caminhando firme, confiante. Se nenhum dia for de luta, pode ser que sejam muitos de glória, mas todo o dia de luta, certamente será um dia de glorificação. Então, se lutar for preciso, que a mente esteja sempre aberta e a boa vontade sempre seja uma de nossas ferramentas espirituais mais fortes.

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