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Parenting é a palavra em inglês para maternidade ou paternidade, mas quando se refere a questões envolvendo dependência química, ela ganha um pouco mais de sentido. Poderia ser traduzida como o processo de criação dos filhos promovendo apoio físico, emocional, social, financeiro e desenvolvimento intelectual de uma criança da infância para a idade adulta. Refere-se aos aspectos de criar um filho além do relacionamento biológico normal, mas psicológico também, principalmente no que se refere à codependência.

Praticar parenting com nossos filhos pode ser um problema significativo para nós pais/mães alcoólicos em recuperação. Eles, ainda que adolescentes, eventualmente estão fora do nosso círculo de controle, mas sempre estarão dentro do nosso círculo de influência! E precisamos estar presentes. Nossos filhos devem sentir que estamos disponíveis para ajudar, sem que fique pairando em suas mentes a imagem do pai/mãe alcoólico na ativa.

Observando diversos artigos publicados em revistas científicas, artigos sobre o assunto e mesmo em publicações internacionais de Al-Anon, pude elencar alguns princípios básicos e fundamentais na nossa relação com nossos filhos que ajudam a melhorar o relacionamento. São elementos-chave que os ajudam a nos ver como presentes nas suas vidas adultas ou jovens, que seremos uma influência em suas vidas e que agora podemos fazer isso de forma positiva, ajudando em um dos aspectos mais básicos na autoestima e afirmação como seres humanos em uma sociedade: as tomadas de decisão.

Mas lembre-se! Para tudo o que está escrito abaixo ser elementos de melhoria para seus filhos, é importante que tenha em mente os princípios básicos de honestidade, humildade e mente aberta, não por acaso respectivamente aqueles invocados nos 1º, 2º e 3º Passos de Alcoólicos Anônimos. Ou seja, não adianta parar de beber e não mudarmos nossas atitudes e pensamentos perante o mundo e encontrar uma nova maneira de viver (leia mais no post O alcoólico que nunca bebeu).

Pois bem, seguem as considerações para refletirmos:

Seja um mentor, não um ditador

Não estou fazendo a suposição que você sempre foi um pai/mãe ditatorial, mas a medida que uma criança cresce, principalmente em um ambiente de alcoolismo, nosso papel é significativo para mudar a impressão de que tem de nossa vida alcoólica. Acredita-se que é importante dar conselhos, oferecer recursos e ajudar quando necessário, mas não assumir o controle. Nossos filhos precisam fazer suas próprias escolhas e assumir as consequências delas. Então, o nosso papel como um pai/mãe precisa ser mais como um amigo mais velho e agora confiável. Precisamos respeitar nossos filhos, já os desrespeitamos demais.

Estabeleça limites apropriados

Quando filhos, mesmo adultos, vivem com você ou quando você está fornecendo apoio financeiro para eles, você pode e deve estabelecer as condições para que continue a apoiá-lo. Para isso, sua vida alcoólica passada deve ficar no passado. É preciso estar realmente em recuperação para poder estabelecer limites, mesmo quando é você quem sustenta a casa. Seus filhos adultos precisam manter você informado sobre onde estão, o que estão fazendo e com quem. Você tem o direito de saber, MAS na condição de codependentes, eles precisam de reciprocidade, ou seja, é importante que eles também conheçam sua rotina e, caso ela mude, sejam avisados. Essa segurança é fundamental para eles terem confiança em você e aceitarem suas regras justas.

Mantenha responsabilidade financeira

Embora seja certamente aceitável ajudar financeiramente um filho adulto que precisa de ajuda, é preciso que os ensine a ter responsabilidade financeira. E para isso, você deve dar o exemplo! É importante que eles possam saber das responsabilidades deles para lidar com dinheiro, mas também precisam saber das obrigações que você tem para manter a casa. Dessa forma, o ideal é que eles sejam envolvidos nos processos de decisão e do pagamento de contas. Mas, importante, a opinião deles deve ser considerada sempre! Caso contrário, ficar de “corpo presente” ou como mero ouvinte em uma discussão sobre planejamento financeiro da família tornará a atividade desgastante e só tende a piorar a situação. Ou seja, tentaram de tudo para ajudá-lo a combater o vício e agora têm suas autoestimas jogadas no lixo porque suas opiniões não são consideradas. Fique atento a isso. Seus filhos são agora seus parceiros, não suas vítimas.

Esclareça as expectativas regularmente

Em recuperação, quase todos os alcoólicos buscam ou anseiam um contato estreito com seus filhos e gostariam não só de saber como andam as coisas com eles, mas também demonstrar como andam as coisas consigo (cuidado para não incorrer nos defeitos de caráter da autopiedade, do egoísmo, entre outros). Para manter essa equação balanceada, é importante que você, além de arguir sobre os planos de seus filhos para o futuro, também deixe claro para eles quais são suas metas, suas expectativas e o que estás fazendo para alcançá-las. Essa atitude é fundamental para que, mesmo que aos poucos, vocês comecem a trocar experiências, confiarem uns nos outros e o mais interessante: comemorar juntos as vitórias!

Deixe os seus filhos serem adultos

Finalmente, às vezes os pais estão ansiosos para continuar a proteger seus filhos de consequências negativas, como foi o caso do alcoolismo ou da dependência química a outras drogas no seu caso. Mas os melhores pais sabem que eles devem permitir que seus filhos experimentem os pontos positivos e negativos da vida. Confie neles. Eles compreendem muito bem o exemplo negativo que você deu durante sua vida alcoólica ativa. Agora só o que você pode fazer é mostrar o quanto você pode ser feliz e ter uma vida próspera em recuperação (lembrando que recuperação significa não só abstinência, mas um pensar constante sobre a vida e a busca incessante pelo aperfeiçoamento pessoal). Pode ser doloroso para você, mas creia: foi ainda mais doloroso para eles assistir você se matando e destruindo a família.

Parenting pode ser uma proposta difícil. Mas se todos queremos nossos filhos de volta. E para fazer isso acontecer, devemos buscar os processos adequados. É uma grande meta. Talvez a mais nobre depois daquela a que nos propomos quando decidimos parar de morrer e começar a viver em recuperação.


Escrito pelo editor do blog Alcoólico em Paz. É livre a reprodução, desde que citada a fonte e, preferencialmente, o link para este post.

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