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Pelo menos nesses últimos 10 anos de busca pelo controle de meu alcoolismo, o que inclui consultas a dezenas de psicólogos, psiquiatras, uso de vários medicamentos e pelo menos cinco internações em clínicas para dependência química ou mesmo em hospital psiquiátrico, finalmente encontrei na literatura médica algo que possa me dar um alento. Uma palavrinha difícil e com conceito bem específico pode ser a chave para meu comportamento alcoólico: distimia. Depois de muito pesquisar, resolvi escrever este post na tentativa de ajudar outros que possam estar passando pela mesma situação que eu. Estou sob atendimento de terapeuta familiar, três psiquiatras e um psicólogo, todos especialistas em dependência química ou especificamente alcoolismo. Ainda considerando estar à beira do abismo da recaída, acho que estamos chegando a vitórias expressivas. Pois, bem. Vamos lá.

Afinal, o que é distimia?

De acordo com o médico psiquiatra, coordenador do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Táki Cordás é uma palavra que vem do grego e significa mau humor. Durante séculos, serviu para caracterizar o sujeito mal humorado, irritadiço, de personalidade complicada. Atualmente, o termo distimia é empregado para designar um subtipo da depressão. Ainda de acordo com ele, na maioria das vezes, o distímico abusa do álcool para aliviar a tensão.

_ Na distimia, não é tanto o comportamento explosivo que chama a atenção. É a irritabilidade. No entanto, quando se avalia o paciente pela primeira vez, é difícil diferenciar distimia de depressão. Embora seja uma depressão mais leve, ela deixa o indivíduo predominantemente mais triste, desanimado, sem vontade de agir. Às vezes, dependendo do nível cultural, torna-se pedante, acha que nada está bom nem é original, não vê nada de novo sobre a face da Terra que mereça sua atenção. São pessoas que passam a maior parte do tempo irritadas, mal humoradas.

Qual a relação entre distimia e alcoolismo?

Ainda de acordo com Cordás, existe uma coisa interessante no tratamento dessas pessoas. Pacientes com depressão são medicados por algum tempo e, quando retornam para consulta, estão animados e dispostos. Já para os distímicos é difícil estabelecer um padrão de normalidade porque eles não têm memória de como eram antes. Não lembram como é o seu humor normal. Parece que foram sempre daquele jeito mesmo.

_ É comum o uso de drogas lícitas e ilícitas e de tranquilizantes. Muitas vezes, as drogas representam uma espécie inadequada de autotratamento para diminuir a angústia, a irritação e o mal-estar. O álcool é o tranquilizante mais antigo que se conhece. O homem pré-histórico tomava álcool para ficar mais calmo. De fato, num primeiro momento, deixa o indivíduo mais tranquilo e seu humor melhora um pouco. Algumas horas depois ou no dia seguinte, aumentam os sintomas de depressão e a irritabilidade. O pior é que, a longo prazo, além da distimia, a pessoa tem que encarar a dependência do álcool.

Medicamentos ou terapia?

Tanto as drogas quanto a psicoterapia ajudam pacientes com distimia. Os antidepressivos corrigem o distúrbio biológico e eles melhoram. No entanto, os relacionamentos que estabeleceram ao longo da vida estão marcados pela imagem do sujeito irritado, que reclama de tudo e briga por qualquer coisa. Não é por causa dessa mudança biológica do humor que, de uma hora para outra, tudo vai se acertar. Por isso, são encaminhados para a psicoterapia para aprender novas possibilidades de estabelecer relações.

_ Imagine um indivíduo coxo que, durante dez anos, andou com dificuldade, mas teve seu problema ortopédico corrigido por uma cirurgia. Ele precisa fazer fisioterapia para corrigir a postura que esteve alterada por tanto tempo e perceber o espaço que ocupa agora para movimentar-se. Na verdade, ele precisa reaprender a andar. É mais ou menos isso que acontece nos quadros de distimia, só que o aprendizado se volta para as relações afetivas, familiares e sociais _ afirma o médico.

Ainda segundo Cordás, isoladamente, a psicoterapia acaba cobrando um desempenho, uma performance inatingível para esses pacientes que têm uma limitação orgânica que os impede de mudar.

Faça o teste

O paciente com distimia tem cinco ou mais dos seguintes sintomas por pelo menos dois anos:

  • Desinteresse ou perda do prazer pela maioria das atividades que costumam ser prazerosas;
  • Irritabilidade, mau humor e descontentamento constante.
  • Baixa autoestima;
  • Desmotivado nos estudos e trabalho;
  • Constante desperança e pessimismo;
  • Insônia ou dorme excessivamente (hipersonia);
  • Perda de apetite ou alimentação exagerada;
  • Dificuldade de concentração e memória, levando a queda significativa no desempenho;
  • Tende ao isolamento, poucos amigos e vida social limitada;
  • Sente uma falta de capacidade.

Confira um depoimento anônimo

Bia, Rio de janeiro, 24 de setembro de 2009

“Há alguns dias descobri ou resolvi começar a enxergar que tenho dois problemas graves, que atrapalham mais do que eu pensava minha chance de ser feliz. Sempre tive problemas de humor e depressão, desde criança. Esta semana, descobri que tenho uma doença chamada distimia, que é como uma depressão porém mais leve. O problema é que ela, apesar de ser leve, é continua. Então, ao invés de você às vezes estar deprimido, às vezes está bem. É muito triste e me sinto muito culpada, pois nem ao menos sei o motivo de tanta tristeza. Me sinto culpada, pois tenho um bom trabalho, uma boa casa, uma linda filha e um ótimo marido. Algumas pessoas não tem nada disso e vivem melhor do que eu.”

“Tive uma constatação que, apesar de difícil, me ajuda bastante. Começou com a distimia, evoluiu para uma depressão pós-parto e evoluiu para o alcoolismo. Alcoólatra, eu? Imagina… quantas vezes neguei isso… Hoje resolvi não negar mais. Uma pessoa que bebe todos os dias durante anos é o quê? Sempre pensei que não era pois sou uma ótima mãe, uma boa esposa, não caio pelas ruas e nunca faço escândalo, só tomava uma cervejinha. Que mal havia nisso?”

“Comecei a me assustar com o problema quando comecei a ficar ansiosa pelo fim do expediente. Às vezes, nem conseguia esperar chegar em casa. Comprava logo uma cerveja no posto e ia tomando enquanto dirigia. Chegava em casa, mais uma, mais uma, cozinhando mais uma, até no banho eu a levava. Um dia, levei minha filha no shopping e enquanto ela jantava tomei dois chopes grandes. Fiquei alegre, como queria. Na saída peguei mais um. Fui pra casa dirigindo, com minha filha atrás dormindo, passei mal e vomitei pela janela com o carro andando, quase bati. Depois desse dia fiquei assustada e comecei a perceber meu problema.”

“Sempre tinha uma desculpa pra beber (…) e sempre tinha uma desculpinha para não me sentir alcoólatra. É muito triste perceber isso pois quando percebe que está viciada no álcool e perde aquele lance gostoso de beber as vezes com os amigos. Uma alcoólatra não pode beber NUNCA mais! Isso acabou comigo.”

“Quanto à distimia, pelo que li (e se encaixa muito bem a mim) ela aparece na infância ou na adolescência. As causas são inúmeras: infância difícil, pais separados, perdas, pais alcoólatras… entre outros. Passei por quase tudo. Enfim, uma coisa levou a outra. Se eu tivesse sido diagnosticada na adolescência, hoje talvez eu não fosse alcoólatra.”


Escrito e editado pelo editor de Alcoólico em Paz com informações de profissionais da saúde consultados e trechos de artigos publicados em Dr. Drauzio Varella, Wikipedia, Fórum Saúde, ABC da Saúde e Folha Online.

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