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Sempre ouvi a fábula dos dois lobos, o bom e o mau, brigando dentro da gente. Tive o prazer (ou a sorte, quem sabe) de ter um consultor em uma clínica que ampliou essa questão. Confesso que não lembro exatamente qual foram suas palavras, nem mesmo o enfoque específico. Mas, como místico que é (pelo menos era – e acredito que até xamanista) o tal consultor, refletia observações a respeito daquele antigo (não diria lenda) ensinamento passado de geração em geração, geralmente atribuído a populações nativas norte-americanas: a dos dois lobos. Diz assim:

Conta uma antiga lenda que, certa noite, um velho índio falou ao seu neto sobre o combate que acontece dentro das pessoas.
Ele disse:
_ Há uma batalha entre dois lobos que vivem dentro de todos nós. Um é mau: é raiva, inveja, ciúme, tristeza, desgosto, cobiça, arrogância, pena de si mesmo, culpa, ressentimento, inferioridade, orgulho falso, superioridade e ego. O outro é bom: é alegria, fraternidade, paz, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé.
O neto pensou nessa luta e perguntou ao avô.
_ Qual lobo vence?
Então o velho índio respondeu.
_ Geralmente vence aquele que você alimenta mais.

Por alguns anos, essa estória metafórica me fez pensar muitas vezes. Mas talvez tenha sido só agora, em recuperação assistida, e depois de tanto sofrer, e depois de uma certa idade, e depois de uma certa caminhada… que eu encontrei uma pessoa com quem pude conversar mais a respeito.
_ São dois cães brigando constantemente dentro da mente e da alma de um dependente químico. E, muitas vezes, não é questão de alimentá-los, é questão de saber domá-los.

Disse ainda mais (e é aí que eu considero o pulo-do-gato):
_ A questão é que você pode empoderar mais um do que outro…

Em função de minha formação acadêmica, acabei lendo bastante um dos pais da Sociologia, Max Weber. De acordo com ele, para um bom funcionamento da sociedade (aqui resumimos para o indivíduo), é preciso que haja algo que force a pessoa a agir de tal forma. Weber chamou esse elemento diferencial e inerente ao ser humano de “espírito”. Nesse contexto, ele se referia a “espírito” como um sistema de máximas do comportamento humano baseado em uma ética comum.

Parece bem complicado, né? Mas na verdade é bem simples. Uma pessoa ou algo só tem poder sobre ti ou sobre um grupo social se tu ou esse grupo social legitima esse poder. Ou seja, se considera que esse poder é verdadeiro.

E é aí que eu entro com minha experiência pessoal. Até então, empoderei minhas emoções em detrimento de minha razão. Acreditava piamente que eu deveria aprender a controlar minhas emoções para poder ter acesso a uma razão teórica ou básica E SOMENTE ENTÃO pudesse permanecer abstêmio ou até atingir algo de sobriedade. Essa visão é proclamada em clínicas, grupos de apoio e pela maioria dos profissionais que se dizem especialistas em dependência química. Mas agora, depois de desintoxicado e com certa capacidade de entendimento de minha doença, pela primeira vez (acredito) percebi que a razão (o que aqui chamo de lobo ou cachorro bom) consegue se interpor ao pote de emoções o qual minha existência foi enchendo.

Sim, mesmo sendo uma doença física, mental, (muitos dizem também espiritual) e sem cura, o alcoolismo pode sim, ser pelo menos estacionado por um lobo bom, o lobo da razão. Acredito que, como aquela máxima de A.A. ou N.A. que diz que umas pessoas conseguem se superar por estarem cansadas de sofrer e outras por necessidade de permanecer vivas, essa batalha realmente existe. Porém…

Acredito que chega a um certo ponto de que pessoas que ainda têm um “direito” de viver, ou seja, podem ainda recuperar suas vidas, conseguem fazer com que o cachorro bom prevaleça. “Deu! Chega!” … quem sabe um despertar espiritual, como diz na literatura de A.A.

E é assim que, pela primeira vez nesses 25 anos de agruras, meu lado racional está conseguindo sobreviver, ou melhor, se fazer maior.

Hoje tenho um grande pote de emoções. Um grande pote. Mas só vou mexer nele à medida que posso. Hoje tenho prazer em viver, mesmo com meus problemas e os problemas dos outros… Hoje vejo o pote de emoções e decido o que tirar de lá para resolver, pensar, solucionar… O mais, que fique lá. Fique nesse grande pote. E não me incomode. Só por hoje.


Escrito pelo editor. A reprodução é livre desde que citada a fonte e, preferencialmente, o link para este blog.

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