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Acredito ser necessário nós alcoólicos e adictos em recuperação refletirmos sobre dois aspectos da nossa reeducação pessoal: a aprendizagem social e emocional e a vivência com outras pessoas (não necessariamente outros alcoólicos/adictos). Olhando bem para nossas vidas na fase ativa de nossa doença percebemos que a ausência total de autodomínio nos empurrava a atitudes desprovidas de qualquer resiliência. E quase sempre isso resultava na falta de objetivos concretos ou sinceros e de persistência para qualquer outra atitude próspera. Estivemos cansados, entregues, melancólicos. Reclamávamos de todos os reveses. Éramos as pessoas mais injustiçadas desse mundo (e acaso do outro). Era o reinado absoluto da autopiedade.

Entendo que, se acaso resolvermos reverter o giro dessa roda destrutiva de modo a adquirirmos um mínimo de condições de convivência social (e até conosco mesmos), devemos focar no trabalho de uma habilidade chamada empatia. Ou seja, procurar saber o que os outros sentem e pensam, tentar compreender seus pontos de vista, suas crenças e seus desejos. Apenas essa compreensão sincera pode ser capaz de nos tornar pessoas sensatas ou então, diria, menos intragáveis. Nem penso em solicitar aqui atitudes de cooperação ou trabalho em equipe. Ajudaria bastante se ao menos nos tornássemos pessoas mais mansas e compreensivas. E engana-se quem acha que tal ajuda é para os outros. Tal estado de espírito e consciência ajuda, essencialmente, a nós mesmos.

Há algum tempo, existem pesquisas sobre um aspecto da psicologia e psiquiatria chamado de neurociência social. Envolvido nisso, há um estudo sobre “neurônios-espelho”, espécie de células cerebrais que são estimuladas com base no que percebemos em outras pessoas. É como se tivéssemos um “cérebro social” (no nosso caso bem involuído) que, se devidamente (re)ativado, nos permite compreender mais claramente as situações nas quais estamos envolvidos, as pessoas com as quais estamos interagindo e nos deixar mais tranquilos para tomadas de decisões. Afinal, se formos bem sinceros, sabemos que mais da metade (ou muito mais do que isso) dos problemas que nos envolvemos poderiam ter sido evitados caso tivéssemos habilidade social para escolher palavras, gestos ou atitudes. Livres de perturbações, passaremos mais tempo determinando objetivos lúcidos, aumentando nossa autoestima e melhorando cada vez mais nossa capacidade empática. E então teremos a inversão no sentido da roda: paramos de patinar ou andar para trás.

E assim passamos a um rumo mais fluido em nossa recuperação, pois passamos a cultivar a compaixão. Sim, começamos a ir além a compreensão dos sentimentos dos outros. Passamos a demonstrar preocupação e estarmos prontos para ajudar, conforme nos solicita o 12º Passo de Alcoólicos Anônimos. Tendo experimentado o despertar, passamos voluntaria e legitimamente a ajudar aqueles que ainda sofrem (ou sofrem mais do que nós). E falar nisso nos tempos atuais, quando temos quase sempre dezenas de questões que parecem sempre mais importantes ou mais urgentes para resolver, quando recebemos centenas de informações, e-mails, mensagens, telefonemas… ou mesmo quando achamos que precisamos de mais tempo para cuidar da nossa própria recuperação, pode quase parecer um desatino. Mas não podemos esquecer que nossa recuperação também depende disso. Dessa entrega ao outro. E de uma coisa estou certo: compaixão é um sentimento que pode ser aprendido. Ele começa com o desejo sincero de desenvolver a empatia. Mais do que isso, passa também pelo sentimento da necessidade de agir, a despeito da virtuosidade ética.

Resumindo, acredito que a empatia pode ser dividida em três níveis. O primeiro é mais relativo à percepção, ou seja, compreendemos como as outras pessoas veem o mundo e por que se posicionam de tais formas diante das situações. O segundo é mais emocional. Conseguimos perceber quase que instantaneamente como os outros se sentem, como se também pudéssemos sentir suas emoções. Já o terceiro nível, acredito que mais difícil para pessoas “normais” e mais fácil para alcoólicos e adictos, é o que podemos chamar de preocupação empática. Se dá quando estamos sintonizados com o outro e prontos para ajudar.

Tudo muito lindo. Mas uma coisa é dizer, outra é fazer. Deixar de lado nossos principais defeitos de caráter, o orgulho e o egoísmo, é tarefa para a vida. Para nós, conviver com outras pessoas com zelo caridoso e genuíno é quase um deboche. Mas acredito ser esse o caminho para construirmos uma base segura para a nossa recuperação. Precisamos urgentemente saber conviver com os outros, cada vez melhor. É imperioso que tenhamos atitudes sensatas e generosas. Com essa base segura podemos ter a mente funcionando em um nível agradável e firme, sem oscilações; conseguimos assumir riscos inteligentes e crescer na vida. Nossa criatividade passa a ser utilizada para o nosso bem e o de outras pessoas. Voltamos a sentir entusiasmo com nossos projetos e a confiar e receber confiança daqueles com os quais convivemos. Isso tudo, creio, é mais que um passo. É uma caminhada bem mais serena em nossas vidas em recuperação.


Escrito pelo editor de Alcoólico em Paz. A reprodução é livre desde que citada a fonte e indicado link para o texto original.

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