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Mesmo em recuperação há alguns anos, muitos de nós alcoólicos e adictos ainda nos sentimos como na fase ativa de nossa doença em alguns aspectos, principalmente o social. Não diríamos que somos como estranhos no ninho, mas é como se sentem os companheiros de enfermidade que, por um motivo ou outro, não conseguem trabalhar a si próprios para enfrentar com certa tranquilidade o mundo real. De fato, ao conhecermos os primeiros momentos de sobriedade após algum tempo de abstinência, deparamos com um sistema social completamente diferente daquele que vivíamos em nossos tempos ébrios.

E o mais chato disso tudo é que qualquer criança parece entender os conceitos e regras, o que é sensato, as consequências de certos atos ou palavras… enquanto chacoalhamos a cabeça como se a certificarmo-nos que estamos realmente lúcidos. Parece exagero, mas se levarmos em consideração a quantidade de mancadas que damos em nossos primeiros tempos sóbrios, fica parecendo que não temos habilidades humanas básicas. Sabemos do potencial que temos para adquiri-las ou recuperá-las. E rogamos por sabedoria para tanto.

Perceber que estamos conectados a um sistema complexo, cheio de pontos de ligação, uma verdadeira teia com multiconexões, já assusta um pouco. Ficamos ainda mais surpresos ao saber que somos solicitados a participar. Agora nossa opinião importa. Nossa ação é solicitada (afinal, ninguém quer um peso extra na teia que não ajude a construí-la constantemente). Mas o quê e como fazer? Nos sentimos como um garotinho aprendendo a andar de bicicleta. Para conseguir se equilibrar nessa nova forma de locomoção, ele descobre que precisa pedalar mais rápido e virar o guidão na direção a qual a bicicleta está caindo. Exatamente o contrário do que sabia desde que aprendeu a caminhar, diminuindo a velocidade e se inclinando no sentido contrário ao da queda. Sim. Por algum tempo, tudo é tão diferente. Até que passamos a desenvolver a nova habilidade, o que alguns estudiosos chamam de inteligência sistêmica. Ela é que nos permite trabalhar o autoconhecimento, a autogestão, o reconhecimento dos sentimentos e necessidades dos outros e a busca de serenidade nas tomadas de decisão. Pois são essas tomadas de decisão, os caminhos a escolher, as palavras a usar que costumam atormentar um alcoólico/adicto consciente de sua recuperação.

É comum que não entendamos alguns delays da vida. Por exemplo, alguém pode ser franco demais conosco, ou nos ignorar quando achamos que deveríamos ser considerados, ou até mesmo ser rude. Em um primeiro momento, não entendemos tais atitudes. Ocorre que geralmente não nos voltamos ao passado com empatia a fim de compreender tais atitudes. Muitas das vezes, em épocas anteriores, tínhamos agido de forma pior com essas pessoas. Pode ser que nem lembremos, mas é bem mais possível que não tenhamos capacidade de olhar para nossas atitudes do passado com os olhos e os sentimentos do outro. Se assim o fizermos, creio que muitas das “injustiças” que sofremos agora têm explicações bem plausíveis.

Pois bem, e como agir ao descobrirmos isso? Sorte nossa que temos disponível um programa de 12 passos. Descobrimos por meio dele que no oitavo podemos trabalhar essas descobertas relacionando as pessoas a quem tínhamos prejudicado e, mais importante, nos dispor a fazer alguma forma de reparação. E isso começa justamente com nossa preocupação empática com tais pessoas. Mais além, o Nono Passo nos convida a fazermos essas reparações. Começamos a viver mais leves.

Avançando um pouco mais, o Décimo Passo pede que continuemos a pensar sobre nossos atos e a admitir prontamente no caso de estarmos errados. Então, além de reconhecer os delays e entender as relações de causa e efeito, com o tempo adquirimos a habilidade de descobrir antecipadamente onde surgem consequências involuntárias. Ou seja, passamos a agir com mais sensibilidade prospectando os efeitos de nossas atitudes e palavras nos outros. Nos tornamos mais sensatos, mais mansos, mais criativos até. Isso faz parte da serenidade.

Podemos continuar na tentativa de “demarcar território”, de defender nossa opinião até a morte e até utilizá-la para machucar quem não concorda conosco. Ou podemos fazer aflorar em nós a compreensão da consciência coletiva, na qual se sabe que o mundo, a sociedade, a nossa família e até nós mesmos não somos exatamente o que pensamos, mas o resultado de milhares de outras opiniões. A nossa é apenas uma, mas a mais importante. Não por ser a melhor (isso não estão em questão), mas por ser a que melhor e mais facilmente podemos modificar. Quando compreendemos isso, passamos a enfrentar questões desafiadoras com mais humildade e sabedoria. Nossa recuperação depende disso.


Escrito pelo editor de Alcoólico em Paz. A reprodução é livre desde que citada a fonte e indicado link para o texto original.

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