Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , ,

Há alguns anos, lendo um livro do empresário e, por que não, pensador pós-moderno Ricardo Semler, deparei com o que ele chama de “ferramenta dos três porquês”. Na vanguarda de seu tempo, Semler tem um jeito irreverente e contestador que o coloca sempre à frente no que se refere à inovação. A ideia é bem simples: perguntar “por que” três vezes seguidas ao analisar qualquer assunto. Segundo ele, é uma das chaves para fugir de uma “vida insossa, uma sociedade insatisfeita e uma padronização que abafa até a alma”. Pois bem. Pensei um pouco a respeito e acredito que os três porquês podem ajudar muito na tomada de decisões quando estamos vivendo uma recuperação do alcoolismo.

Na prática, podemos notar que a primeira resposta todos temos. Por quê? Ora, porque tal e tal! Nossa capacidade de raciocínio geralmente é acionada quando ouvimos o segundo porquê. Somos chamados a detalhar, ter mais clareza em nossa argumentação. E é aí que geralmente o alcoolista – ou dependente químico de outras drogas – tem despertada uma característica instintiva, congênita, natural: a tendência à manipulação. E todos que são ou convivem com dependentes sabem da profunda capacidade que têm nesse quesito. E, se estamos falando de alguém que está em recuperação, ou seja, abstêmio e em busca de eliminar ou, pelo menos, anular seus defeitos de caráter, precisamos ter em mente o amplo esforço necessário para se passar por essa segunda etapa.

Imagino que a “ferramenta” do Semler se aplica bem a alcoolistas pois, como qualquer pessoa, estamos continuamente a fazer escolhas, minuto a minuto. Entretanto já no segundo porquê vimos que somos diferentes e, querendo ou não, até uma pequena escolha consegue desviar o trem para trilhos que levam a lugares não muito desejáveis. Então, quando finalmente conseguimos, geralmente com certo esforço, chegar a uma resposta minimamente clara, vêm o terceiro: “tudo bem, mas por quê?” É então que surge a questão do foco.

Foco é um dos principais instrumentos de quem está em recuperação. E não é o caso de ampliarmos essa questão, mas falarmos de escolhas é importante. Nesse terceiro porquê é quando as pessoas costumam fechar os olhos e seguir a intuição. Nós não temos esse direito. Precisamos estar sempre atentos como no jargão que diz que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Necessitamos colocar nosso foco naquilo que melhora nossas vidas, pois aquilo que não melhora, certamente vai piorar.

Jesus Cristo disse, segundo o evangelista Mateus: “Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mt, 6:21). Assim sendo, mais fácil fica responder ao terceiro porquê quando perguntamos a nós mesmos: onde está o meu tesouro? O que é importante na minha vida? Onde devo colocar meu foco? O que vai acarinhar meu coração?


Escrito pelo editor de Alcoólico em Paz. A reprodução é livre desde que citada a fonte e indicado link para o texto original.